22 de junho de 2017

Prancheta Histórica - Copa América 1997 - A volta do sorriso mais famoso do Mundo e a vaga na semifinal

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Mais do que a vitória tranquila sobre o Paraguai no dia 22 de junho de 1997, o Brasil pôde enfim comemorar uma ótima atuação de Ronaldo na Copa América. Com apenas 20 anos na época, ele vinha de três temporadas fantásticas no futebol europeu - duas no PSV e uma no Barcelona. A média de quase um gol por jogo e o alto nível das atuações o alçaram ao posto de melhor jogador do mundo. Até então na competição o camisa 9 brasileiro estava devendo. Ás voltas com a transferência do Barcelona para a Internazionale, conseguiu respirar aliviado dois dias antes da partida com a definição do imbróglio, e o Paraguai acabou pagando o pato. Sofreu dois gols do Fenômeno e caiu nas quartas de final do torneio.
Pensando só em jogar futebol, Ronaldo teve sua primeira bela exibição na Copa América contra o Paraguai
Hoje é dia do Linha Alta reviver o quarto jogo da Seleção na competição. A vitória por 2x0, com gols de Ronaldo em Santa Cruz de la Sierra, mais uma vez teve um Brasil irregular no aspecto ofensivo, mas novamente organizado defensivamente, a exemplo do que já havia acontecido contra a Colômbia. O Paraguai se classificou como um dos melhores terceiros colocados num grupo em que ficou atrás de Equador e Argentina. Venceu os chilenos, mas foi derrotado pelos equatorianos e empatou com os argentinos em Cochabamba, cidade a 2.500m de altitude.

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A equipe guarani, a começar pelo banco de reservas, tinha vários conhecidos da torcida brasileira. Paulo César Carpegiani era o técnico da equipe que liderava as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1998 com seis pontos de vantagem para o segundo colocado. Arce, com passagem por Palmeiras e Grêmio, Gamarra - Internacional, Flamengo e Corinthians -, Struway (Portuguesa), Espínola (Internacional) e Villamayor (Corinthians) completavam as figuras com vivência em solo brasileiro.
Chilavert fez 62 gols na carreira
No gol paraguaio o grande expoente daquela geração, o mítico goleiro José Luis Chilavert, especialista em reposição de bola, cobranças de falta, pênalti, e também em polêmicas. Roberto ``Toro`` Acuña e Gamarra eram os outros destaques técnicos. Para o jogo contra o Brasil, o Paraguai teve cinco desfalques e, para se ter ideia do quanto a equipe mudou em um ano, apenas três jogadores que iniciaram aquela partida jogaram a estreia da Copa do Mundo de 1998 doze meses depois.

O adversário

O esquema tático do Paraguai de Carpegiani era o 3-5-2. O sistema de marcação obedecia a encaixes individuais já pré-estabelecidos. Na zaga, Sanabria acompanhava Romário e Espínola vigiava Ronaldo de perto, Gamarra sobrava. No meio, Alcaraz perseguia Denílson e Gómez ``pegava`` Leonardo. Pelo lados, Arce e Villamayor marcavam respectivamente Roberto Carlos e Zé Maria. Acuña, de forma menos intensa, era o encarregado de acompanhar Flávio Conceição. Já os atacantes Soto e Rojas dividiam-se no combate a Dunga e a dupla de zagueiros.
Exemplo de disciplina tática e algo que não era comum na época: atacantes atrás de linha da bola e pressionando o adversário que tinha a posse.
A proposta era marcar com intensidade e acelerar na retomada da bola, acionando os velozes Soto e Rojas. Tanto que Cardozo, jogador mais de área, foi preterido. Era um time muito agressivo na marcação. Todos participavam no momento defensivo e a aplicação tática já era a mesma vista na Copa do Mundo de 1998.

O Brasil

Zagallo decidiu dar continuidade ao 4-3-1-2 que vinha implementando antes da Copa América e nos dois jogos iniciais do torneio. Flávio Conceição voltou ao time no lugar de Mauro Silva, Gonçalves foi mantido na zaga, Zé Maria substituiu o suspenso Cafu na lateral e Roberto Carlos retomou o seu posto. Denílson foi mantido, mas como apoiador pela esquerda. Tinha mais liberdade que Flávio Conceição no momento ofensivo, mas precisava voltar e compor a trinca de meio por trás do mais adiantado Leonardo.
Disposições Táticas iniciais das equipes. Veja os encaixes de marcação do Paraguai especificados em setas vermelhas
Meio-campo em losango novamente
O Jogo

 A estratégia guarani mostrou-se mais eficaz no início de jogo. Os comandados de Paulo César Carpegiani executavam seus encaixes de marcação com muita intensidade e travavam o time brasileiro. Mais uma vez a Seleção se precipitava na construção ofensiva. Tentava muitas bolas diretas, apostando na individualidade de Romário e Ronaldo e verticalizando o jogo constantemente. Nos primeiros 15 minutos foram três chegadas perigosas do Paraguai, que retomava a bola e acelerava as jogadas. Acuña duas vezes e Arce assustaram Taffarel. Romário respondeu pelo Brasil após boa jogada de Zé Maria, mas em cena rara perdeu gol feito na pequena área.

Aos 18 minutos o Brasil chegou ao gol mais uma vez no talento individual. Gonçalves forçou o passe para Ronaldo, Espínola fez a antecipação, mas pisou na bola e o centroavante brasileiro arrancou para bater no canto direito de Chilavert. Se seguia com problemas coletivos na frente, a Seleção mostrava ajuste mais eficaz na defesa. Leonardo, Denilson e Flávio Conceição acertaram o posicionamento e intensificaram a postura na marcação. O resultado foi um time mais compacto, laterais próximos à linha defensiva e menos espaços aos adversários.
Trinca inicial do meio brasileiro bem posicionada desta vez e se movimentando de acordo com a posição da bola. Compactação, abordagem intensa de marcação, coberturas e compensações bem feitas  
Um exemplo claro: bola no flanco direito e Denilson sobe a marcação para dar combate a Arce, Leonardo, mais acima, se aproxima para fazer a cobertura e fechar prováveis linhas de passe, Dunga e Conceição fazem o mesmo fora do quadro da imagem 
Como resultado, o Brasil tinha uma linha de quatro defensiva quase sempre montada e sem oferecer espaços para passes em profundidade, tão comuns nos outros jogos. Com a participação efetiva e organizada do meio-campo, laterais conseguiam guardar o seu setor e não se distanciavam da linha defensiva
O Paraguai tinha dificuldades. Faltava mais criatividade, qualidade também, e o nível do jogo caiu ainda mais. Arce assustou em cobrança de falta aos 33 minutos, mas um minuto depois tudo ficaria mais tranquilo. Num raro lance de jogada trabalhada e movimentos de apoio do Brasil, Denilson arrancou em diagonal e aproveitou a puxada de marcação de Leonardo, arrastando Alcaraz para o lado do campo e abrindo um clarão para o jovem brasileiro progredir com a bola. A cobertura não chegou a tempo e o camisa 20 deu bela assistência para Ronaldo entrar por trás da defesa, em impedimento, e marcar o segundo gol brasileiro.
Aqui o detalhe da origem do segundo gol. Leonardo, sem a bola, puxa a marcacão do volante paraguaio para o lado e o espaço se abre para a penetração de Denílson
Em desvantagem no placar, Carpegiani teve que mudar a estratégia. Sacou Espínola e colocou o ala-esquerdo Jara. Villamayor passou a jogar como volante e Alcaraz foi pra zaga. Gamarra passou a marcar Ronaldo mais de perto. Ainda no primeiro tempo pintou a segunda substituição. Soto saiu e o centroavante Cardozo entrou buscando mais presença de área.
Como ficou o Paraguai depois das alterações feitas ainda no primeiro tempo
Na segunda etapa o Paraguai teve mais a bola, mas continuou esbarrando no bom funcionamento defensivo do Brasil e nas suas próprias limitações. Não conseguiu chegar por vias de jogada trabalhada, somente em chutes de fora da área, que acabaram não levando perigo a Taffarel. O Brasil teve muito espaço pra contra-atacar. Denílson se destacou e Ronaldo perdeu a grande chance de fazer o terceiro gol aos 20 minutos. Recebeu em profundidade e foi derrubado por Chilavert, mas bateu mal o pênalti e viu o folclórico goleiro se recuperar.

Roberto Carlos ainda acertou a trave em chute muito forte de fora da área, mas o resultado ficou o mesmo até o apito final. Mais uma vez o Brasil resolvia o jogo na individualidade. Oscilações a parte, o sorriso mais famoso do Mundo em 1997 reaparecia com a camisa da seleção brasileira.

Por Rodrigo Coutinho - @RodrigoCout       

  

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