14 de junho de 2017

Prancheta Histórica - Copa América 1997 - O início da caminhada e a goleada frente a Costa Rica

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O Linha Alta reabre hoje a sua sessão Prancheta Histórica. No projeto temos a ambição de trazer detalhes táticos e contar o passo a passo de conquistas históricas que completam ``aniversários redondos`` neste ano. Chegou a vez da Copa América de 1997, disputada na Bolívia e vencida pela seleção brasileira com um elenco recheado de talento. A primeira parada é a estreia contra a Costa Rica, jogo realizado no Estádio Ramon Tahuichi Aguilera, em Santa Cruz de la Sierra, no dia 13 de junho de 1997.
Romário e Ronaldo se cumprimentam após um dos gols da goleada por 5x0. Um serviu ao outro em dois dos tentos anotados.
Apesar da qualidade técnica que transbordava no grupo de 22 jogadores convocados por Mario Jorge Lobo Zagallo, o Brasil passava por muitos questionamentos na época. Como detalharemos nesta série de análises, faltava jogo coletivo e movimentos táticos padronizados, o que poderia dar ainda mais capacidade ao time. A derrota para a Noruega por 4x2, em Oslo, naquele mesmo ano, reforçava a impressão

A mescla entre experiência e juventude estava presente. O plantel tinha nomes consagrados e campeões do mundo como titulares três anos antes: Taffarel, Aldair, Dunga, Romário, Leonardo, Marcio Santos(lesionado) e Mauro Silva. Tinha também jogadores de muita capacidade, mas que ainda buscavam convencer com a camisa canarinho: Cafu, Roberto Carlos, Giovanni, Gonçalves, Djalminha, Carlos Germano, Célio Silva, César Sampaio, Edmundo e Paulo Nunes. Além de jovens valores: Ronaldo, Flávio Conceição, Denilson, Zé Roberto e Zé Maria.

Rivaldo, destaque do futebol europeu no Deportivo La Coruña, seguia fora. Muito em virtude da chuva de críticas que sofreu após as Olimpíadas de 1996. A preparação para a competição foi feita no Torneio de Paris, disputado contra Inglaterra, França e Itália. O Brasil voltou com dois empates e uma vitória do quadrangular e chegava à Bolívia disposto a quebrar o tabu de nunca ter vencido uma Copa América longe do solo nacional. Já era tetra do torneio - 1919, 1922, 1949 e 1989 -, mas todas elas no Brasil.

A adversária    

Oponente da estreia, a Costa Rica era treinada pelo argentino Horacio Cordero e tinha alguns bons jogadores no setor ofensivo. Destaque para o ponta-direita Medford, que atuava no futebol mexicano, assim como o ponta-esquerda Soto. O centroavante Ronald Gómez chutava muito forte e era jogador do Sporting Gijón, da Espanha. O volante Solis era outro destaque, atuava no Derby County, da Inglaterra.
O ponta Medford foi o principal jogador da Costa Rica naquela noite em Santa Cruz de la Sierra
O esquema tático da equipe era o 4-3-3, mas que no momento defensivo transformava-se num 4-4-2. Medford não participava da recomposição e ficava sempre aberto ás costas de Roberto Carlos para ser lançado em profundidade. Com isso, Solis fazia a compensação pelo lado direito do meio-campo. Naquele mesmo ano de 1997, a Costa Rica chegou a vencer em casa os Estados Unidos e empatar fora com o México, mas não conseguiu vaga na Copa do Mundo de 1998.

O Brasil

Montado por Zagallo no 4-3-1-2, o Brasil tinha Djalminha como vértice mais avançado de seu meio-campo. Leonardo e Flávio Conceição eram os apoiadores e Dunga o jogador mais defensivo. O ex-lateral, até por sua característica, infiltrava mais na defesa adversária. Enquanto que o então jovem volante buscava um jogo mais posicional. Romário e Ronaldo formavam a genial dupla de ataque. E Cafu e Roberto Carlos eram os laterais. Aldair e Gonçalves no miolo de zaga e Taffarel na meta completavam a equipe.

A principal característica era acumular jogadores na faixa central do campo. A ideia era ter aproximação por ali e aproveitar a qualidade técnica dos jogadores na entrada do terço final do campo. Os lados eram raramente utilizados pelos apoiadores ou atacantes. Somente Cafu e Roberto Carlos transitavam com frequência nesta faixa. Uma equipe bem ofensiva, mas que dependia demais da genialidade de seus atletas para produzir, além de demonstrar problemas defensivos.
Como as equipes se posicionaram taticamente

O jogo  

O Brasil não começou bem. Sofria para trocar passes e produzir mediante à forte e recuada marcação costarriquenha.O time adversário quando tinha a bola saía em velocidade, principalmente pelo lado direito de ataque, forçando as jogadas com Medford nas costas de Roberto Carlos. O lateral, inclusive, ganhou um cartão amarelo com apenas seis minutos de jogo. Aldair também levaria na sequência.

Como errava no posicionamento para marcar os lados do campo, o time de Zagallo via Cafu e Roberto Carlos se distanciando demais da linha defensiva para dar combate. O resultado era a linha de quatro sempre ``quebrada`` e espaços para infiltrações de López e Solis. Dunga (em grande atuação), Gonçalves e Aldair sofriam para tentar fechar as lacunas. Faltava mais coordenação entre Conceição, Leonardo, Djalminha, Romário e Ronaldo no combate inicial. Sem ela, ``estourava``lá atrás.
Flagra do desenho tático do meio-campo do Brasil
Fosse a Costa Rica uma seleção melhor tecnicamente o Brasil teria saído atrás no placar. Algo que quase aconteceu aos 11 minutos. Após falha dupla de Taffarel, López ``tirou tinta da trave``. Três minutos depois o árbitro não marcou pênalti claro de Gonçalves em Soto e a torcida brasileira, presente em bom número em meio aos 35 mil espectadores, começou a pedir mais rendimento.

A Seleção foi se adaptando ao irregular gramado e começou a se estabelecer no campo ataque. Aos 17 minutos criou a primeira boa chance. Dunga enxergou Djalminha entre as linhas de marcação da Costa Rica e o talentoso meia deixou Ronaldo na cara do gol. O Fenômeno chutou em cima de Lonnis, Romário finalizou mal no rebote e o próprio Dunga bateu por cima na sequência.

Com a posse, Dunga foi muito importante para colocar o Brasil no jogo. Ditou o ritmo na iniciação das jogadas e foi um contrapeso mediante a afobação momentânea de Flávio Conceição. O então jogador do La Coruña passou a entrar no jogo após sofrer falta na entrada da área aos 21 minutos. Djalminha bateu com perfeição e abriu o placar.

Mesmo em vantagem, não dava pra dizer que o Brasil dominava inteiramente o jogo. Seguia sofrendo com os problemas táticos na parte defensiva, mas já tinha Conceição e Leonardo mais ativos sem a bola. Dono da camisa 10 naquela campanha, Leonardo foi importante na construção do segundo gol. Aos 34 minutos ele se aproximou de Roberto Carlos pela esquerda e serviu o lateral. O cruzamento encontraria Ronaldo, mas o zagueiro González marcou contra. A jogada explorou bem a falta de recomposição de Medford por aquele lado.
Na origem da jogada do segundo gol, Leonardo e Roberto Carlos `dialogando`pelo lado esquerdo. Pelo centro, em amarelo, Djalminha se aproxima também. Se utilizasse mais essas `associações`, jogo do Brasil seria ainda mais criativo. 
Na segunda etapa, a Costa Rica resolveu adiantar um pouco a sua última linha de marcação e proporcionou os espaços para os passes em profundidade que o Brasil tanto queria. Com apenas um minuto, Romário precisou de um leve toque de cabeça para transformar o chutão da defesa em linda assistência para Ronaldo marcar. Seis minutos depois foi a vez de Leonado servir o camisa 9, ele deu um lindo drible de Gonzalez e finalizou com perfeição.
Flagra de aproximação na faixa central do campo
Faltava o do Baixinho, e ele veio aos 15 minutos. Novo passe - desta vez de Dunga - em profundidade para projeção em velocidade de Ronaldo. Ele tocou para Romário girar bonito em cima da marcação e anotar um gol com o seu DNA. Zagallo ainda colocaria Edmundo, Giovanni e Zé Maria em campo, sacando Djalminha, Romário e Cafu, mas o placar não se alterou, apesar de algumas chances criadas pelo Brasil.

O resultado foi muito melhor do que o cenário inicial da partida poderia supor, mas condizente com o que se aguardava antes da bola rolar. A qualidade técnica foi abrindo caminho para que o Brasil pudesse explorar algumas falhas táticas da equipe costarriquenha. O próximo adversário, três dias depois, seria o México, que venceu a Colômbia por 2x1 na primeira rodada. Sexta-feira você confere essa história aqui

 Por Rodrigo Coutinho - @RodrigoCout

    

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