5 de janeiro de 2017

Dominante na última década, o Lyon exemplifica a mudança no futebol francês

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O Lyon foi o clube a ser batido na França na última década. Com os sete troféus consecutivos da Liga Francesa, Les Gones obtiveram um amplo domínio doméstico e grandes campanhas a nível continental, mas sua hegemonia caiu no final da década e, após sucessivos fracassos buscando voltar ao topo, o clube decidiu mudar sua conduta administrativa, na temporada 2011/2012. Com o fim do domínio futebolístico e financeiro no país, o clube passou a investir seus esforços na produção de jogadores através das suas categorias de base.

A dupla de maior talento do atual Lyon: Alexandre Lacazette e Nabil Fekir (Foto: Getty Images)
Não é fácil um clube como o Lyon se manter tanto tempo no topo de uma liga tão equivalente quanto à francesa. O clube, que antes de 2001/2002 jamais havia sido campeão francês, levantou o troféu sete vezes seguidas. Um feito e tanto. Os traços e personagens daquele time histórico são conhecidos, de Juninho Pernambucano a Cris.

Mas uma hora a casa cai, já diria o poeta. Mais precisamente na temporada 2008/2009. O Lyon perdeu alguns jogadores importantes (Coupet, Squillaci, Ben Arfa) e viu o Bordeaux de Laurent Blanc e Yoann Gourcuff quebrar sua sequência de títulos. Poderia ter sido 'uma temporada ruim', mas os anos seguintes mostraram que algo estava errado no Gerland. 

Com enorme investimento (mais de 80 milhões de euros depositados em reforços) na temporada seguinte, contratando Lisandro López, Bafetimbi Gomis, Michel Bastos, Aly Cissokho e Dejan Lovren - também pela grana obtida com a venda de Karim Benzema -, o Lyon até conseguiu fazer uma campanha melhor que a do ano anterior, mas insuficiente para ser campeão. O Marseille de Didier Deschamps foi quem levantou o caneco.

Além de vender Benzema ao Real Madrid, o Lyon perdeu Juninho Pernambucano, que foi para o Al Gharafa do Qatar. A saída do Reizinho foi um momento marcante da história do clube, uma ruptura de gerações que o clube teve de passar. A temporada seguinte (2010/2011) foi a última com esforços financeiros significativos, com as chegadas de Yoann Gourcuff e Jimmy Briand, grandes promessas do futebol francês à época.


O Lyon nunca deixou de produzir bons jogadores nas suas canteras, é bom deixar claro. Um dos estandartes da época de ouro do clube, Sidney Govou, é produto do próprio Lyon, assim como Karim Benzema e Hatem Ben Arfa. A época de ouro, porém, impedia que mais jovens ganhassem espaço porque o elenco era recheado de grandes jogadores. Após temporadas de sucessivos fracassos na Ligue 1, o Lyon adotou a política de revelar e utilizar seus jogadores no elenco profissional. Embora o clube não tenha voltado a conquistar a Ligue 1, ao que pese ter o multibilionário PSG na liga, o Lyon revelou uma bela safra de grandes jogadores nos últimos anos e se tornou uma das categorias de base mais badaladas da Europa.

Com bem menos investimento direto e mais jovens no grupo, o Lyon ficou fora da UEFA Champions League em 2012/2013, com a quarta colocação obtida na temporada anterior. Foi a primeira vez no SÉCULO que o Lyon não jogou a principal competição continental. De positivo, a consolidação de Maxime Gonalons e o surgimento de Alexandre Lacazette, Samuel Umtiti e Clément Grenier.

(Foto: Getty Images)
De um broto aqui e outro ali, o Lyon foi enchendo seu elenco de jovens bons jogadores. O argelino Rachid Ghezzal surgiu um ano depois e posteriormente apareceram Anthony Lopes, Jordan Ferri, Corentin Tolisso, Anthony Martial (vendido precocemente ao Monaco), Nabil Fekir e Clinton N'Jie. Foi com essa base de jogadores que o Lyon conseguiu brigar pelo título da Liga na temporada 2014/2015. Somente a sensação de poder almejar o título já foi um avanço enorme para o clube depois de temporadas ruins e distantes do que a torcida pretendia. O Lyon encerrou a temporada 2014/2015 com oito dos dez jogadores mais utilizados sendo formados em casa. Na temporada 2010/2011, o número de jogadores pratas da casa entre os mais utilizados era zero. 

Com um elenco com a idade média em 23 anos, o Lyon busca dar um passo maior nos próximos anos e seu novo estádio é fator importante nisso. O clube tem tentando segurar suas estrelas ao máximo, mas quando o Barcelona chega com 25 milhões de euros para contratar seu zagueiro é difícil de segurar. Alexandre Lacazette é o sonho de consumo de meia Europa e sua saída parece ser questão de tempo, mas Jean-Michel Aulas quer esticar ao máximo o tempo do atacante em Lyon.

Falando de Lacazette, impressiona no Lyon a quantidade de gols que atletas formados em casa fizeram: 26 dos 34 gols marcados pelo time foram de canteranos. Além disso, doze jogadores das categorias de base do clube já foram utilizados na Ligue 1, além de Max Cornet e Olivier Kemen, contratados ainda bem jovens. 

Kanté, pelo Caen, divide a bola com Dimitri Payet, pelo Marseille. (Foto: AFP/Getty Images)
O Lyon foi o clube francês de maior sucesso na última década (e podemos afirmar, ainda, que no século) e precisou se adaptar ao que o mercado pede. O futebol francês se tornou um grande espaço para surgimento de jovens jogadores, mas com o crescimento absurdo de outras ligas, o país perdeu muita força para competir no mercado de transferências. A França se torna cada vez mais uma mera exportadora de jogadores (a Premier League que o diga) e ainda 'sofre' com o monopólio doméstico montado pelo Paris Saint-Germain e seus petrodólares. 

Sem muito pra onde correr, clubes franceses continuam revelando bons jogadores como se não houvesse amanhã. E é interessante perceber que os próprios grandes clubes do país (exceção feita a PSG e Monaco) não conseguem mais tirar jogadores dos concorrentes com facilidade. N'Golo Kanté é um bom exemplo. Com destaque no Caen, o jogador foi para o Leicester, ignorando o 'natural' caminho de ir para um clube maior do próprio país. Situações assim são a tendência hoje, já que o atual mercado interno do país é bem inferior ao que estávamos acostumados na última década. E, diga-se, o mercado interno francês nunca chegou perto de Inglaterra e Itália, por exemplo. 

Quem ganha com o atual momento vivido pelo futebol francês é a própria Seleção Francesa, que não para de ganhar opções de ótimo nível, seja para o elenco principal ou para as categorias de base. A Ótima Geração Francesa é a bola da vez do mundo do futebol e provavelmente será por um bom tempo, mas o futebol local sofre bastante com a conjuntura atual do futebol europeu. A Ligue 1 nunca foi uma liga absurdamente forte e continua não sendo, porque é impossível que os clubes mantenham um nível de rendimento tendo que achar soluções a cada janela que se inicia. 

Jogadores jovens às vezes são vendidos após sua temporada de estreia (como foi o caso de Ousmane Dembélé no Rennes) na elite francesa. Os torcedores acabaram tendo que se acostumar com a dura realidade atual. Se Juninho Pernambucano fosse meia do Lyon hoje em dia, provavelmente seria contratado pelo Bournemouth na janela de inverno. 

Por Nicolas Müller - @_nicolasmuller

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