8 de dezembro de 2016

Renato Portaluppi e as mudanças que fizeram o Grêmio campeão da Copa do Brasil

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O Grêmio é campeão da Copa do Brasil. Com uma trajetória cheia de percalços e um fim memorável, o Tricolor finalmente quebrou o jejum de quinze anos sem grandes conquistas. Sob a batuta de Renato Portaluppi, mas formado por Roger Machado, o Grêmio conseguiu chegar ao histórico título mesclando as boas coisas dos dois treinadores. Renato foi inteligente para perceber a ótima base e corrigiu alguns defeitos que deixavam a equipe desequilibrada. Mostra evolução como treinador, ainda que precise mostrar seu trabalho em 2017. O título da Copa do Brasil, no entanto, é mais importante do que tudo no momento gremista.

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Bola aérea defensiva

Talvez o fator mais determinante para o ano ruim do Grêmio sob comando de Roger Machado tenha sido a precária bola aérea defensiva da equipe. Com marcação mista (zona e individual), o Grêmio sofreu com a execução da proposta e uma mudança conceitual não foi discutida em nenhum momento. Renato trouxe consigo das praias cariocas a marcação individual. Muito menos complexa que a marcação mista, a marcação homem a homem não sanou completamente os erros defensivos gremistas, mas foi um curativo bem firme para um time que já tinha perdido muito sangue. Marcação individual não é superior a marcação mista (é impossível superiorizar conceitos, já que o importante realmente é a execução dos mesmos), mas se mostrou mais eficiente. Roger se agarrou na sua convicção e caiu do cavalo. Às vezes é pertinente dar o braço a torcer para uma melhora.

Estilo de marcação 

O estilo de marcação gremista não mudou somente nas bolas paradas, mas também com a bola rolando. Roger usava a moderna e complexa marcação zonal, que foi realmente algo positivo durante sua passagem por Porto Alegre. O Grêmio sempre soube utilizar-se do seu bom e organizado poderio defensivo para vencer jogos no contra-ataque durante a passagem de Roger pelo comando gremista. Renato, porém, mudou. Agora usa a marcação por encaixes e a execução da proposta está muito bem (até houve uma grande melhora defensiva nos números). O Grêmio, embora bem, conseguiu melhorar seu rendimento nesse quesito, ainda que tenha abdicado de maior presença ofensiva dos laterais e volantes.

Individualidades no seu lugar 

Luan foi um dos destaques do Brasileirão de 2015 atuando como falso nove, função que já realizava na base gremista e Roger Machado o deu respaldo para exercer nos profissionais. Tentando encaixar ora Henrique Almeida, ora Miller Bolaños, Roger constantemente mudou Luan de posição. De falso nove para extremo. Acontece que Luan é o diferencial da equipe do Grêmio e sua principal característica é a movimentação inteligente e incessante. Tendo que recompor por um dos lados do 4-4-2 defensivo do Grêmio, Luan perdeu a liberdade para se movimentar, algo que tinha como falso nove. Roger tinha uma solução, mas 'criou' um problema. Sempre reiterando que Luan não se torna uma porta jogando no lado do campo, mas ele invariavelmente cai de rendimento. Renato foi lógico e astuto para realocar Luan na sua função, de onde poucas vezes saiu desde então.

Renato também foi inteligente (e contou com um pouco de sorte) ao ter Ramiro no time. Buscando um jogo mais equilibrado que seu antecessor, ter o volante, lateral e meia Ramiro na linha de três foi uma boa decisão. Ao ter o polivalente jogador na equipe titular, o Grêmio ganha com poder de marcação, pausa, poder de infiltração, inteligência e fôlego pelas laterais. Ramiro é quem, do atual elenco, consegue reproduzir de forma mais aproximada a função que Giuliano fazia com louvor. Mas os méritos não param por aí. Renato também conseguiu que o jogador recuperasse o nível técnico de outros tempos (um misto de sorte e de entendimento pessoal), o que foi essencial na campanha vitoriosa da Copa do Brasil.

A participação da dupla de volantes 

O futebol homogêneo e coletivo buscado por Roger Machado nunca deixou dúvidas de sua eficiência, mas também nunca foi perfeito. Com a dupla de volantes sendo peça fundamental da construção de jogo, Roger dava liberdade para ambos subirem ao ataque, o que causava contra-ataques perigosos em toda e qualquer bola perdida no ataque. Com os dois responsáveis por ocupar o espaço à frente ainda se deslocando para o lance, os adversários normalmente ficavam em situações favoráveis contra a dupla de zaga gremista. Pedro Geromel e seu nível paranormal deixou isso mascarado durante algum tempo, mas sua queda de rendimento foi o bastante para o Grêmio se tornar um time exageradamente exposto.

A dupla de volantes gremista (Maicon e Walace), ótima por sinal, continua sendo o pilar do momento ofensivo do time, além de Luan. A dupla tem uma enorme facilidade para conduzir a saída de bola e levá-la ao último terço do campo, seja em uma condução ou em um passe. São os maiores responsáveis pela circulação da bola, um conceito bastante usado pelo Grêmio até com Renato. A diferença é que agora um dos dois permanece recuado enquanto o outro busca uma infiltração ou se adianta para dar continuidade ao lance. Os laterais também se tornaram menos ofensivos, o que colabora para a melhora dos números da defesa gremista. M. Oliveira jamais foi um grande apoiador, nem com Roger, mas está bem mais tímido ofensivamente agora. O que não deixa de ser positivo, visto que o lateral gremista passa longe de ser um exemplo de lateral eficiente no apoio.

Novo ânimo 

Futebol se joga, sobretudo, com a cabeça. Se não pensar com rapidez e precisão, o jogador erra, porque sua ação foi mal planejada. Ainda há a confiança, um dos fatores mais implícitos e importantes do futebol. Roger não conseguiu manter o grupo confiante e psicologicamente bem na série de maus resultados que culminaram com sua saída. Não teve estofo para segurar a barra e reagrupar, reanimar e partir para a próxima. Com um grupo psicologicamente abatido, embora cheio de qualidades técnicas e táticas, não se faz nada.

A chegada de um novo treinador, por si só, motivou o grupo de jogadores. O que foi azeitado pela ótima condução de elencos do atual treinador gremista. Sem tempo para mudar muito, Renato foi inteligente, manteve a base sólida do Roger, arrumou o que achou estar equivocado e disse para todo mundo que o ano não estava perdido, inclusive para a torcida gremista.

Com mais precauções e buscando continuar com o estilo de jogo implementado por Roger, Renato soube ler o que estava errado e mudar, o que seu antecessor não conseguiu. O Grêmio continua sendo o Grêmio de Roger Machado, mas com boas pitadas da malandragem de Renato Portaluppi e com defeitos corrigidos. Os dois são reinadores opostos, mas, juntos, construíram este Grêmio histórico e campeão.

@_nicolasmuller


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