21 de dezembro de 2016

Quem é o Nice que desafia PSG e Monaco pelo título da Ligue 1?

Compartilhe nas redes sociais

Os amantes de futebol foram pegos de surpresa pela excelente campanha do Nice na França na atual temporada. O tradicional clube, que fechou o primeiro turno com um empate contra o Bordeaux, conseguiu a façanha de fechar o primeiro turno liderando a Ligue 1, a frente do bom Monaco de Leonardo Jardim e do todo poderoso Paris Saint-Germain. O Nice obviamente conta com o começo conturbado de Unai Emery na capital para liderar o certame, mas tem seus próprios méritos.


Tetracampeão francês, o Nice é uma das equipes tradicionalmente 'de meio de tabela' da Ligue 1. Normalmente não corre risco de rebaixamento e ora ou outra consegue algo a mais, como a vaga na Uefa Europa League na última temporada, sob comando de Claude Puel, que se transferiu ao Southampton, depois de quatro temporadas comandando o clube francês. 

A temporada atual iniciou com um novo treinador, um novo trabalho e muitos asteriscos. Ao menos por enquanto, os asteriscos estão sendo extremamente positivos. O clube fecha o primeiro turno e passa o Natal na liderança da Ligue 1. Se vai conseguir continuar no topo, só o futuro dirá, mas precisamos falar desse time. 

O comandante Lucien Favre

(Foto: AFP/Valery Hache)
O treinador suíço que recolocou o grande Borussia Mönchengladbach no cenário europeu é o comandante dessa, ao menos por enquanto, histórica campanha do Nice. Aos 59 anos, Favre não tem um currículo tão vencedor (possui quatro títulos, todos na Suíça), mas bastante positivo, com ótimo trabalho no Zurich e na Alemanha, por Hertha Berlin e Monchengladbach. Seu estilo inventivo, ofensivo, veloz e vertical gerou muitos fãs pela Europa. Um treinador bastante importante na moldagem do futebol alemão nos últimos anos, fazendo seu Gladbach ser um time agradável e competitivo. 

Para uma análise mais aproximada, o Linha Alta abre espaço para Luís Prates, torcedor do Borussia Mönchengladbach e blogueiro na Vavel e no Bundesliga Brasil. 

''Eu comparo o Borussia de Lucien Favre a uma orquestra. Numa orquestra, é necessário que todos os integrantes assumam determinados tons numa apresentação e estejam em sintonia. No Mönchengladbach de Lucien Favre, os jogadores assumiam posições diferentes em determinados momentos das partidas. Isso à primeira vista parece confuso (e realmente havia a intenção de confundir os adversários), mas o entrosamento (comparando-se à orquestra, a sintonia) entre as peças existia. Foi com Favre que bons jogadores como Granit Xhaka e Christoph Kramer vieram a Mönchengladbach e "explodiram" pro mercado. Com Favre, o zagueiro Dante, normalmente estabanado, viveu a melhor fase de sua carreira e chegou à Seleção Brasileira'', comenta Luís.

Presente no seu atual trabalho, o rodízio de jogadores foi um ponto vital na carreira de Favre pelo Gladbach. ''Em seus últimos anos na Alemanha, Lucien Favre adotou o rodízio de jogadores. Ele tinha a intenção de criar um "carrossel dos Potros", e foi com essa estratégia que o Borussia atingiu o G-3 da Bundesliga e chegou à fase de grupos da UCL 3 anos depois de ficar em 4° com a mesma base que quase fora rebaixada na temporada anterior, quando ele chegou'', acrescenta.

O trabalho de base e os frutos para a equipe principal 

Não é segredo pra ninguém a fase especial que vive a França no que tange à revelação de jovens talentos. Talvez tenha algo especial na água francesa, mas o trabalho de base que a maioria dos clubes realiza é muito bom. Não é diferente no Nice. A equipe titular, que variou bastante durante essa primeira parte de temporada, tem Yoan Cardinale, Malang Sarr e Vincent Koziello, além do polivante Olivier Boscagli como opção no curto banco de reservas da equipe. 

Yoan Cardinale finalmente se tornou o goleiro titular de forma absoluta, após uma temporada de 'revezamento' com Mouez Hassen, outro goleiro canterano do clube e um ano mais jovem. Cardinale é um dos poucos jogadores da Ligue 1 que esteve em campo em todos os minutos da sua equipe no campeonato até aqui. Está entre os melhores da posição no campeonato. 

Desde os cinco anos nas categorias de base do clube, Malang Sarr é outro que foi titular em todos os jogos do Nice na Ligue 1. Aos 17 anos, Sarr impressiona pela segurança e pela maturidade com que atua. Zagueiro pela esquerda na linha de cinco defensores que Lucien Favre utiliza, o jovem é o jogador de linha com mais minutos da equipe na Ligue 1, prova de que tem total confiança do treinador. Presença constante nas seleções inferiores da França, Sarr é uma joia bruta de Les Aiglons e já chama a atenção de todos os clubes potentes financeiramente da Europa. 

Assim como Sarr, Koziello é presença constante nas seleções de base da França aos 21 anos. O jovem volante também é uma grande joia do clube. Baixinho (1,68cm) e nada robusto, Koziello compensa com qualidade para 'esconder' a bola. Se trata de um jogador talentoso e muito, mas muito inteligente em campo. Moderníssimo. 

Um verdadeiro exemplo de Scouting

O futebol se tornou um grande balcão de negócios, nós sabemos. O que os clubes fazem fora de campo normalmente dita o que se vê dentro das quatro linhas. Nesse aspecto, a prospecção de jogadores, o scouting, é um dos fatores mais importantes na formação de um elenco, ainda mais para clubes com pouca receita, como é o caso do Nice. Se o Paris Saint-Germain esbanja dinheiro e contrata quem quiser, o Nice precisa ser rápido, eficiente e certeiro nas suas contratações. E consegue ser. 

Com uma política de contratar jovens jogadores franceses, o clube adicionou Wylan Cyprién ao seu elenco no início da temporada por 'apenas' cinco milhões de euros. O meio-campista revelado pelo Lens (clube que tem uma das melhores categorias de base da França) se tornou peça-chave logo nas suas primeiras aparições com a camisa do atual clube e já gera interesse de outras equipes pelo continente, inclusive o Atlético de Madrid. Da mesma forma, o Nice adquiriu no início da temporada o meia Arnaud Lusamba, ex-Nancy, que também tem participações em seleções de base do país, assim como Rémi Walter, contratado na última temporada, também proveniente do Nancy. 

Alassane Pléa também não deixa de ser um exemplo. Há mais tempo no clube e artilheiro da equipe na Ligue 1, o potente Pléa é produto do Lyon e foi trazido ao Allianz Riviera por apenas 500 mil euros na temporada 2014/2016. Agora com 23 anos, o atacante vai para sua terceira temporada em Nice e começa a ser protagonista, com média de 0,5 gol por jogo. 

Um lar para desajustados 


O Nice, querendo ou não, planejando ou não, se tornou um destino interessante para estrelas ou bons jogadores problemáticos. O clube deu suporte e conseguiu ajudar Hatem Ben Arfa a voltar a ter destaque na última temporada, Com as bonissimas atuações do meia a equipe se manteve no topo da tabela até o final da competição e conseguiu uma vaga em competição europeia. 

Ben Arfa partiu para Paris, mas a cota de 'desajustados' para a atual temporada aumentou, com Younes Belhanda e Mario Balotelli, O meia marroquino, que já foi campeão da Ligue 1 pelo Montpellier, se encontrava em um momento difícil na carreira, após passagem ruim pelo Dynamo Kyiv e pelo Schalke 04. A volta para a França caiu muito bem ao jogador, que voltou a ter atuações de grande nível e é importante para a provisória liderança da equipe na Ligue 1. 

Mario Balotelli dispensa apresentações. Sem ser bem-vindo em Liverpool e sem continuidade no Milan, coube ao italiano 'descer' um degrau e assinar com o Nice. Com 26 anos e buscando reconstruir sua carreira após duas temporadas horripilantes, o atacante parece ter escolhido o lugar certo. Ao menos enquanto mantiver a cabeça em campo. Com 10 gols na temporada, o jogador tem sido muito importante para Favre e o elenco curto do Nice. Se a temporada caminhar no mesmo passo, Balo tem tudo para seguir o caminho de Ben Arfa.

Os brasileiros em Nice

O Nice conta com dois brasileiros no seu elenco: o lateral/ala Dalbert e o já conhecido zagueiro Dante. A dupla poderia facilmente estar presente nas categorias acima. Dalbert como um exemplo de boa prospecção do clube e Dante como mais um da leva de 'renegados', que assim como Balotelli e Belhanda, retomou o nível na França. 

Dalbert foi contratado na atual temporada por dois milhões de euros, após boas temporadas pelo Vitória Guimarães, de Portugal. O lateral esquerdo, aliás, se profissionalizou já em Portugal, após passagens pelas categorias de base de Barra Mansa, Fluminense e Flamengo, no Brasil. A dupla tem em comum a rápida ida para o Velho Continente, já que Dante fez apenas duas temporadas pelo profissional do Juventude antes de ser vendido ao Lille. Além disso, o zagueiro já foi treinado pelo suíço Lucien Favre, que, inclusive, foi um dos responsáveis pelo 'salto' que o jogador deu na temporada 2011/2012, posteriormente se transferindo ao Bayern de Munique. 

Dentro de campo, o que torna o Nice especial? 

O Nice é um dos precursores da atual moda do futebol europeu: a linha de cinco defensores. A equipe utiliza o esquema desde o primeiro jogo da temporada e atingiu um nível de execução muito alto. Com extrema compactação e coordenação para defender e velocidade e qualidade para construir, o Nice é um time bastante adaptável durante as partidas, assim como era o Borussia Mönchengladbach de Lucien Favre. 


A ótima defesa posicional não inviabiliza que a equipe tenha uma construção de jogo paciente e inteligente em alguns momentos, embora a predileção seja pelo jogo reativo. O Nice faz uma boa temporada até aqui muito pela sua capacidade de se adaptar às situações que os jogos impõem. Seja contra-atacando, seja construindo, o Nice consegue se virar, porque o coletivo é homogêneo e todos cumprem sua função pré-determinada. 

O 5-3-2 do Nice vs. Marseille.
A compactação, o balanço defensivo e a pressão no portador da bola adversário vs. PSG. 
A busca pelo jogo no chão é desde a saída de bola. Os alas avançam, geram amplitude e o trio de zagueiros dá automaticamente uma saída a três para a equipe, com o trio de meio-campistas apoiando e levando a bola ao ataque. Não é ao acaso que o time é o segundo com maior posse de bola na liga, atrás apenas do Paris Saint-Germain, além de ser vice também no ranking de precisão de passe. 

O Nice conta com Jean-Michaël Seri no seu meio-campo ainda. O marfinense de 25 anos normalmente o volante centralizado na linha de três. Esbanjando qualidade técnica, Seri é importantíssimo na construção de jogo e na verticalização das jogadas. É o maior assistente e um dos jogadores que mais provém passes-chave na Ligue 1. Ao seu lado, jogam normalmente Wylan Ciprien e Vincent Koziello ou Rémi Walter. Nenhum dos quatro citados é um recuperador de bola nato ou especialista em defesa, mas são jogadores que conseguem cumprir suas funções e fechar os espaços. Na marcação por zona de Lucien Favre, é o que se pede. 

Um exemplo de como o Nice busca sempre a saída pelo chão e como isso é feito. Zagueiros laterais abrem, alas afundam e os volantes voltam para dar opção de passe.
A equipe conta muito com seus alas também. O português Ricardo Pereira, de ótima temporada, e o brasileiro Dalbert são válvulas de escape importantes e cumprem funções essenciais para o funcionamento da equipe. A dupla participa provendo amplitude na fase de construção, dando opção de passe para a saída curta que a equipe faz e participando ativamente do ataque.

Alassane Pléa, Mario Balotelli e Younès Belhanda, que se revezam como dupla de ataque, sempre são presentes na construção da equipe. Ninguém fica parado no Nice. Os jogadores estão sempre em movimentação ou buscando apoiar quem porta a bola para receber um passe. Como dito acima, Favre busca sempre ter um time 'orquestrado', que defende e ataca junto. E o Nice é um belo exemplo de sucesso nessa estratégia. 

Favre não se limita ao 5-3-2. Já utilizou uma variação da linha de cinco, com uma outra linha de quatro a frente, por exemplo. Também houveram jogos em que o Nice atuou em um 4-1-4-1 e, mais recentemente, no 4-3-3 com Pléa, Balotelli e Belhanda na frente.


O Nice de Lucien Favre já conseguiu inspirar muitos outros clubes pela linha de cinco, que ganhou destaque na Copa de 2014, mas seguiu esquecida nos clubes. Agora, na atual temporada, muitos e muitos clubes usam ou já usaram em algum momento o esquema tático. Do Chelsea ao Hoffenheim, de Tuchel a Sampaoli. 

O Leicester enfrentou os grandes e foi histórico na última temporada. Será que o Nice consegue o mesmo feito, conseguindo desbancar o PSG e quebrar a série de títulos dos parisienses? Pelo rendimento da equipe, dá para esperar boas coisas para o restante da temporada. A equipe já foi eliminada na Europa League e na Coupe de la Ligue e terá todos os esforços voltados para a Ligue 1. De qualquer forma, fiquem de olho no Nice. 

Por Nicolas Müller (@_nicolasmuller)

Deixe um comentário

Todos os comentários postados são de responsabilidade de seus autores. É necessário estar logado no facebook para comentar.

 

Bem-vindo ao Linha Alta. Site com conteúdo futebolístico.

© Linha Alta 2016

Edited by Douglas Menezes