15 de dezembro de 2016

O 'Cucabol', os calouros cariocas e a queda do Internacional

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O Campeonato Brasileiro de 2016 encerrou-se em uma melancólica trigésima oitava com apenas nove jogos. A tragédia com a Chapecoense é uma ferida no coração do futebol brasileiro e a cicatrização começa, de pouco a pouco, a nos lembrar que a vida e a bola seguem. 

Um campeonato que foi marcado, sobretudo, pela intensidade do campeão Palmeiras, pelo invencionismo de Dorival Júnior e seu Santos e as surpresas cariocas com os calouros Zé Ricardo e Jair Ventura. 

Gabriel Jesus, o destaque do campeão Palmeiras (Foto: Getty Images)
Campeonato do investimento (Ismael Pereira)

A edição de 2016 do campeonato brasileiro continuou confirmando um fato: o investimento ainda é fator primordial para o sucesso no futebol do nosso país. O campeão Palmeiras exemplificou exatamente isso. 

No início da disputa, elogiava-se muito o jogo apoiado do verdão. Esse bom futebol do time de Cuca rendeu uma quantidade de pontos e, aos poucos, depois de deixar o clube em situação confortável, foi dando espaço para um estilo mais pragmático. O chamado “Cucabol” (referência ao ótimo jogo aéreo ofensivo do Palmeiras) passou a roubar muita atenção e ser arma fatal aos adversários. Foi nesse momento que o citado investimento também foi determinante. Com um elenco recheado de opções, o time paulista usufruiu da sua qualidade e equilíbrio de peças à disposição, para administrar sua liderança e se sagrar campeão com sobras. 

As dificuldades da concorrência também ajudaram. Flamengo e Santos, dois bons trabalhos coletivos, tiveram seus obstáculos. Os cariocas sofreram com as oscilações não resolvidas por Zé Ricardo e os paulistas foram prejudicados por lesões, convocações e pela venda de Gabriel Barbosa. O Atlético-MG, outro clube com elenco de alto nível, viu seu treinador, Marcelo Oliveira, tirar quase nada do grupo e deixar nomes como Robinho, Lucas Pratto e Fred se somarem por conta própria em campo. O caminho ficou aberto para os palmeirenses.

Para muitos, o time de Cuca foi passível de críticas, por não jogar um futebol vistoso ou chamativo. Na verdade, isso é uma questão de gosto. Se o Palmeiras pôde investir tanto em um elenco e depender dele em momentos cruciais, é porque sua estratégia administrativa teve méritos. Você pode não ter gostado do que a equipe demonstrou em campo, mas não pode negar que, no final contas, foi um conjunto extremamente competitivo, que perdeu somente os pontos que poderia perder. Deu certo.

O ótimo Botafogo, da revelação Jair Ventura, e o Atlético-PR, de Paulo Autuori, que teve um “fator casa” impressionante, também merecem lembranças positivas. Os dois vão à Libertadores.
Os demais times tiveram um nível bem abaixo. Fluminense, Corinthians e Grêmio, por exemplo, mostraram bastante inconstância e, mesmo assim, figuraram no meio-frente de tabela. Isso acaba expondo um pouco do lado negativo do campeonato.


Seleção do campeonato: 



Treinador: Dorival Júnior (Santos) – Único treinador da Série A que está no mesmo time há mais de um ano. E com justiça. O seu ótimo trabalho é visível, quando não é atrapalhado por perda de atletas importantes.

Melhor Jogador: Dudu (Palmeiras) – Foi um novo Dudu, muito mais maduro emocionalmente (a braçadeira de capitão fez muito bem a ele nesse sentido) e na sua forma de atuar. Não se limitou só a driblar como em outros momentos, também teve muito critério para se desenvolver em campo.

Jogador Revelação: Vitor Bueno (Santos) – Assumiu um protagonismo na equipe da baixada santista que, normalmente, seria de Lucas Lima ou Ricardo Oliveira. Poderia ter jogado mais, mas uma lesão o atrapalhou.

Treinador Revelação: Jair Ventura (Botafogo) – Tirou o time da estrela solitária das últimas colocações e o deixou na Libertadores, com um futebol bem jogado e com um elenco nada especial.

Decepção do campeonato: Sport Club Internacional – Na maioria das vezes que uma equipe considerada “grande” é rebaixada, ela passa por um ano atípico em questões de qualidade do seu material humano. O elenco do Inter era desequilibrado e não tão estelar como em outros anos, mas também não era ruim. Com seis vagas abertas à Libertadores e com a presença de um certo nível baixo na disputa, em condições normais, o colorado brigaria por vaga no torneio continental. Isso explana bem o tamanho dos erros da gestão do presidente Vitorio Piffero. Erros que começaram na demissão de Diego Aguirre em 2015, passaram pela insistência em Argel Fucks nesse ano, pela aposta em Paulo Roberto Falcão em um momento delicado e pelo “pensamento mágico” ao contratar e demitir, a 3 rodadas do fim do campeonato, o ultrapassado Celso Roth. Não é fácil colocar um time com R$ 300 milhões anuais de receita e mais de 100 mil sócios na segunda divisão, mas aconteceu da pior forma possível para os torcedores da metade vermelha do Rio Grande do Sul.

O Palmeiras do Cucabol e o debate futebolístico no Brasil (Nicolas Müller)

O 2016 do futebol brasileiro é mais um pequeno passo na busca por uma melhora de nível. Se ainda falta qualidade no campo, ao menos começamos a debater e apontar coisas sobre isso. Obviamente é um processo que exige tempo, mas ver torcedores e a imprensa especializada debatendo mais futebol, de fato, é um grande avanço para o futuro. Esquecemos um pouquinho a arbitragem, a corneta, a frase polêmica do centroavante ou do cartola. Um pouquinho. Literalmente um pouquinho. Mas dá para ver que o futebol dentro de campo está mais em pauta. 

O 'Cucabol' foi um grande gerador de debate. O Palmeiras definitivamente não foi um time vistoso na maior parte do campeonato e se mostrou dependente da bola parada em vários momentos da longa etapa. Mas isso não sobrepõe a eficiência que o time obteve durante as trinta e oito rodadas. Foi o time mais regular e pontos corridos se ganham assim. Cobrar um futebol melhor do líder é um tanto quanto ousado, não é? Mas não deixa de ter base. Se há brecha para melhorar, devemos cutucá-la. Para o bem do futebol brasileiro. 

Os novatos do Rio de Janeiro 

Se 2015 foi de Roger Machado, 2016 foi de Zé Ricardo e Jair Ventura, que iniciaram a temporada como auxiliares nos seus respectivos clubes e terminaram como grandes esperanças de suas torcidas, cada um no seu contexto. Enquanto Zé Ricardo conseguiu tirar bom futebol e imprimir modernidade em um bom elenco flamenguista, Jair Ventura foi a grande surpresa da temporada ao dar seguimento e melhorar muito o trabalho de Ricardo Gomes. O Botafogo, recém ascendido, vai disputar a Copa Libertadores em 2017 graças ao trabalho espetacular de Ventura, que alavancou o time da zona do rebaixamento ao G6. 

Estudo, competência, paciência e humildade são qualidades comuns da dupla. De estilos diferentes, ambos pegaram um trabalho em desenvolvimento e transformaram em algo concreto em pouquíssimo tempo. A ver como se saem em 2017, podendo planejar o elenco. A tendência é que evoluam seus próprios trabalhos. 

Além da dupla, Eduardo Baptista fez outro boníssimo trabalho, dessa vez na Ponte Preta. Um dos melhores treinadores do Brasil em jogo reativo. Compacta uma defesa como poucos. Deve substituir Cuca no Palmeiras. 

O rebaixamento do Internacional e o poder de uma má gestão

O inédito rebaixamento do Internacional é um bom exemplo de como uma gestão pode destruir um clube de futebol. Sem conhecimento e sem responsabilidade, Vitório Piffero e seus capangas acumularam tantos erros que o rebaixamento à Segunda Divisão virou realidade ao final do certame nacional. De Diego Aguirre a Lisca, passando por Argel Fucks, Paulo Roberto Falcão e Celso Roth. A direção colorada nunca soube o que quis e isso se viu em campo: um time sem qualquer identidade, ganhando jogos pela qualidade individual (que o elenco rebaixado tem muita).

O rebaixamento colorado, aliás, nasce indiretamente da onda de empáfia que tomou conta do clube nos últimos anos. Piffero durante toda a campanha no Campeonato Brasileiro deu de ombros à possibilidade de rebaixamento, riu do perigo e do desespero do torcedor. Um final trágico para um dos maiores clubes do país. 

Seleção do Campeonato Brasileiro: 



Treinador: Dorival Júnior (Santos)  Não é fácil durar mais de um ano em um clube no Brasil. Dorival contraria a estatística mostrando modernidade e extrema competência para manter seu Santos no topo. Com um elenco muito menos qualificado que o líder Palmeiras, Dorival conseguiu extrair o máximo de todos os seus comandados e chegou ao vice-campeonato.

Melhor Jogador: Dudu (Palmeiras)  Muito se fala de Gabriel Jesus - e justamente -, mas o Palmeiras teve em Dudu um líder e uma referência técnica. Líder de assistências do campeonato, Dudu mostrou maturidade e uma evolução técnica-tática notável. 

Jogador Revelação: Tchê Tchê (Palmeiras) – Tentando escolher entre Tchê Tchê e Vitor Bueno, optei pela regularidade insana do palmeirense. O volante foi um dos fatores mais determinantes do líder durante o campeonato, provendo equilíbrio entre os setores e muita qualidade com a bola no pé. Vitor foi espetacular também.. 

Treinador Revelação: Jair Ventura (Botafogo)  Levar um clube recém chegado da Série B para a Libertadores não é nada fácil. Jair tirou o Botafogo da zona do rebaixamento e o levou ao topo da tabela em uma recuperação fantástica no segundo turno. Pelo elenco de nível discutível, leva a melhor sobre Zé Ricardo.

Decepção do Campeonato: Atlético Mineiro – Ninguém no Brasil reúne um elenco tão poderoso ofensivamente quanto o Atlético Mineiro. Mas ninguém no Brasil teve um sistema ofensivo tão dependente das individualidades como o Atlético Mineiro também. O trabalho ruim de Marcelo Oliveira em Minas não chega a ser uma decepção, mas sim uma constatação de que ele precisa inovar e buscar novos métodos de trabalho. Nem sempre Lucas Pratto tirará um coelho da cartola, nem sempre Robinho vai driblar a defesa rival inteira. Futebol é coletivo e o Grêmio demonstrou muito bem isso na final da Copa do Brasil. 


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