3 de novembro de 2016

Coragem e inteligência definiram a Chapecoense contra o San Lorenzo

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Para o primeiro duelo de uma semifinal continental da história do Verdão do Oeste, Caio Júnior, técnico da Chapecoense, pediu coragem ao time para encarar o San Lorenzo no Nuevo Gasómetro. Em um estádio quase todo lotado, esperava-se uma Chape com brio e insinuante na tentativa de surpreender os comandados de Diego Aguirre. Foi exatamente o que aconteceu. O time brasileiro mandou na partida a maior parte do tempo e conseguiu trazer um excelente resultado para o jogo em território nacional. O 1 x 1 na Argentina permite que a chama do título continue muito acesa.

Pondo em prática o discurso utilizado durante a semana, Caio Júnior dispôs seu time em um 4-1-4-1, com Matheus Biteco entrelinhas, Cléber Santana e Gil de interiores, Thiaguinho e Ananias como extremos, mais Bruno Rangel como referência à frente. Já Diego Aguirre também utilizou-se do mesmo esquema, tendo Mussis entrelinhas, Ortigoza e Corujo atuando por dentro, Cauteruccio e Blanco extremos e Blandi sendo o centroavante dos argentinos.


Desde o início o time brasileiro buscou adiantar suas linhas de marcação, bloqueando o corredor central e induzindo o "Ciclón" a jogar pelos lados. Sempre que a bola estava nos flancos, a Chape executava um pressing muito bem feito, tendo uma contenção agressiva ao portador da bola, reduzindo-lhe tempo e espaço para fluir o jogo argentino, bem como fechava as linhas de passe próximas à frente, obrigando o retorno da bola à zonas mais atrasadas. Ademais, o princípio da cobertura defensiva foi executado em todos os momentos do primeiro tempo.

Com a bola, a Chapecoense buscava um jogo associativo, construindo de maneira curta e equilibrada a partir da banda direita, a de organização. Ananias, Gil e Cléber Santana triangulavam e serviam como solução para o time. Quando apertados, retiravam a bola da zona de pressão acionando Dener ou Thiaguinho no lado oposto, partindo em infiltração ou com desmarques de ruptura para surpreender a última linha defensiva argentina.

A intensa e precisa troca de passes confundia os encaixes argentinos, com os brasileiros ocupando o setor médio-ofensivo no espaço de Ortigoza, que não tinha mobilidade suficiente para acompanhar eficazmente a circulação da bola e dos jogadores. Gimenez funcionava como retorno, e Matheus Biteco era o responsável por cobrir e retirar a bola da pressão quando necessário. Dessa forma, o Verdão do Oeste dominou as ações no primeiro tempo, encurralando e surpreendendo os de Diego Aguirre.


Tentando conter o ímpeto brasileiro, o San Lorenzo procurou gerar jogo a partir de uma saída de três, onde Ortigoza baixava lateralmente ao zagueiro Caruzzo para aliviar Mussis, que estava bem marcado por Bruno Rangel, e organizar a segunda fase de construção ofensiva. A ideia também era atrair a marcação de Gil, que desgarrava da linha, fazendo com que Matheus Biteco se adiantasse para cobrir o espaço deixado e aproveitar a entrelinha formada. Blanco, Cauteruccio e Corujo flutuavam dos lados para o centro sempre que essa estratégia era utilizada.

Aguirre trocou de lado Blanco e Cauteruccio, fazendo que Caute atacasse o espaço interior partindo de fora. A tática funcionou e o San Lorenzo cresceu de produção, haja vista que o passe saía limpo de trás e pelo chão. Angeleri e Más adiantavam-se e eram vigiados pelos extremos brasileiros, fato que deixava Caute de mano com Gimenez. Essa estrutura propiciou o ataque ao espaço que originou a falta do gol dos argentinos.


No segundo tempo, percebendo a superioridade posicional e temporal da Chape na primeira etapa, Aguirre adiantou seus comandados e passou a pressionar ativamente a saída de bola brasileira. Isso obrigava os zagueiros a rifarem a bola em direção a Bruno Rangel, fato que atraía ainda mais os argentinos para o campo ofensivo. Foi então que Caio Júnior pôs Josimar e Sérgio Manoel nas vagas de Matheus Biteco e Gimenez. A intenção foi aumentar a força física nas disputas e aumentar a estatura dos times, precavendo a bola aérea do San Lorenzo.

Com a marcação zonal sendo feita em altura média do terreno de jogo, Ortigoza recuava para trabalhar praticamente sem oposição, no mesoespaço defensivo. Cerutti e Cauteruccio davam a amplitude pelos lados, Blanco e Blandi ficavam centralizados, com Blanco buscando atuar às costas de Josimar. Gil passou para a lateral direita, já que Gimenez havia recebido cartão amarelo. No mais, a estrutura foi mantida, apenas um pouco mais retrasada.

A partir do momento em que os argentinos lançaram-se mais ao ataque, espaços naturalmente começaram a aparecer, principalmente no setor esquerdo no último terço. Angeleri havia passado à zaga, e Ortigoza não cobre eficazmente. Então, Thiaguinho passou a atacar os espaços inteligentemente, contando com as excelentes e rápidas transições ofensivas de Dener pela esquerda. O extremo retinha a bola, ganhava no drible e gerava a superioridade numérica, acionando a ultrapassagem do lateral quase sempre sem o acompanhamento de Corujo ou Cerutti. Em uma dessas estocadas rápidas, a Chape empatou com Ananias após cruzamento de Dener.


Além da coragem, há de se destacar a inteligência com que a Chapecoense atuou na Argentina. Soube controlar a bola no primeiro tempo para conter o ímpeto do adversário, circulou para encontrar espaços entrelinhas e em profundidade, bem como não se abateu com o gol sofrido quase no fim da primeira etapa. Atuou de maneira madura e coesa, bem tecnicamente e fazendo emergirem diversos princípios que propiciaram um futebol agradável, de certa forma. Praticava jogo associativo usando centro-direita, deixando a banda esquerda para as rupturas ofensivas.

O resultado é muito comemorado. Fugindo do discurso raso do resultado, a Chape obteve um desempenho muito bom em um território muito difícil de se impor um modelo atuando como visitante. Caio Júnior tem totais méritos na estratégia utilizada, mas mais ainda ao saber operacionalizá-la. Condicionar um jogo através de posse e marcação zonal é complicado para os padrões brasileiros, e a Chape mostrou que a concentração e a sabedoria para executá-los fizeram a diferença. A partida de volta, porém, está aberta. Entretanto, com o nível de jogo apresentado nesta quarta-feira, o torcedor do Verdão pode seguir confiante e mergulhado no sonho continental.


@remotatico

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