10 de outubro de 2016

Fortaleza: por quê o calvário continua?

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Já são 7 anos no calvário da Série C. 7 anos de angústias transformadas em esperança a cada classificação para a fase de mata-mata. Esperança transformada em incredulidade diante de mais uma eliminação. Perguntas surgem na mente de cada torcedor tricolor sobre azar, maldição, esquemas ilegais, nervosismo nas horas decisivas do confronto, enfim, à sua maneira, cada um tenta lidar com a dor da desclassificação.

Mas e campo e bola? O que o Fortaleza apresentou dentro de campo que não o possibilitou subir de divisão? Houve erros e acertos, mas o padrão foi mantido no jogo final? O nível de desempenho ficou aquém do esperado? Cada mata-mata de acesso tem sua história, e a do jogo contra o Juventude será contada sob o ponto de vista do Tricolor do Pici, com ênfase nas estratégias utilizadas pela equipe de Hemerson Maria que culminaram na eliminação.

O Fortaleza veio com o que tinha de melhor. Juliano e Corrêa como dupla de volantes responsáveis pelo início da geração do jogo ofensivo, tendo Éverton e Rodrigo Andrade abertos gerando amplitude e descoordenação no sistema defensivo gaúcho. Daniel Sobralense e Anselmo ficavam mais à frente, dando a profundidade e alongando o time do Juventude para que os espaços entre as linhas aparecessem e fossem ocupados por extremos e volantes.


A estratégia foi a mesma dos últimos jogos dentro de casa, mas o clube pecou na execução de princípios e tomadas de decisões. Em seu momento ofensivo, o Leão buscava acionar Éverton ou Rodrigo Andrade, que centralizavam para abrir o corredor lateral e poderem triangular com o lateral e Daniel Sobralense. Entretanto, nenhum dos laterais foi efetivo nos avanços ao ataque, deixando o Fortaleza sempre em inferioridade numérica, impedindo assim qualquer chance de criação de oportunidades de finalização.

Nesta fase, configurava-se um 4-2-3-1 com Sobralense flutuando por trás de Anselmo. Porém, com a pouca participação dos laterais, o jogo era afunilado, facilitando os encaixes de marcação do Juventude. Os volantes também pouco acrescentaram na segunda fase de construção do momento ofensivo por não terem características que os habilitassem a infiltrarem constantemente e ocupassem espaços ofensivos proporcionados pela mobilidade dos meias e atacantes.

Assim, o Leão pouco criou a partir de triangulações e jogo posicional. Os dois extremos do Juventude recuavam e compactavam, gerando superioridade nos lados e sempre recuperando bolas ou retardando jogadas. Destaque também para Vanderson e Lucas, executando um bom trabalho de contenção e coberturas defensivas, que limitavam tempo e espaço para os jogadores tricolores, resultando em precipitação e tomadas de decisões ruins, além de acalmarem o jogo quando tinham a bola em seus pés.


Em momento defensivo, o Fortaleza não pressionava imediatamente após a perda da bola, fugindo do "perde-pressiona" preconizado no modelo de jogo e procurava formar duas linhas de quatro a partir da linha divisória. O problema consistia na pressão nula sobre o portador da bola, com uma marcação passiva demais para aquela zona do campo e na distância muito grande entre as linhas. O espaço às costas de Juliano e Corrêa era constantemente ocupado por Roberson, Felipe Lima e Wallacer, que movimentavam-se buscando gerar jogo para Hugo, que prendia os zagueiros.

Além do mais, diferentemente do Fortaleza, o Juventude utilizou seus laterais, principalmente Pará pela esquerda. Isso permitia a constante produção de jogo pelas bandas, propiciando espaços no terreno para que cruzamentos fossem feitos em direção a Hugo. Não houve basculação defensiva por parte dos jogadores tricolores, abrindo espaços entre e intra linhas que impediam a eficiência defensiva e não davam equilíbrio. Percebia-se que o Fortaleza defendia por defender, sem ter uma proposta imediata para a transição ofensiva, pecando no jogo sistêmico anteriormente tão bem executado.


No segundo tempo, com o nervosismo cada vez mais impedindo qualquer eficiência tática, Hemerson Maria lançou Leandro Lima, Juninho e Pio. Sacou Corrêa, Éverton e Daniel Sobralense. Com as expulsões de Pará e Juliano, o campo efetivo de jogo ficou naturalmente mais largo e com mais espaços. Contudo, a necessidade da busca pela virada propiciou poucas jogadas trabalhadas. Pio era o articulador, com Rodrigo Andrade centralizado o ajudando. Juninho, Leandro Lima, Lima e Anselmo ficavam à frente esperando bolas alçadas.

As reais chances foram a partir de Pio em bolas paradas ou chutes de longa distância. Pouco para um clube que apresentou tantos bons conceitos ao longo da competição. Fica a impressão de que o Fortaleza sucumbiu para a impaciência, o azar ou outras coisas que fogem a uma análise racional do jogo. Mas é preciso destacar a grande atuação coletiva do Juventude, sempre sabendo o que fazer em cada momento do jogo. A bela execução da estratégia gaúcha limitou muito o campo de ação dos cearenses,


O Fortaleza teve pela frente um adversário igualmente qualificado, equilíbrio que ficou evidente ao longo dos 180 minutos. Para superar a barreira e conquistar o sonhado acesso, seria preciso encaixar uma atuação praticamente impecável dentro da Arena Castelão. O time errou ao operacionalizar seus princípios e por fugir de outros, o que causou certo desconhecimento sobre o quê fazer em determinados instantes do jogo.

A descompactação foi evidente, o time estava espaçado demais, sem associações e combinações diretas entre os setores. Centralizar demais as ações facilitou a marcação do Juventude e limitava o 1 x 1 por parte dos jogadores de ataque. Poucas foram as tentativas e êxitos nesses lances no jogo final. O time ficou engessado no meio sem ter criatividade suficiente que poderia ser facilitada se houvesse mobilidade lateral, desmarques de apoio e ruptura eficazes que desordenassem a defesa do Papo.


Que o Tricolor do Pici saiba tirar as lições que mais uma eliminação permite extrair. Que tenham cabeça fria para entender que o adversário executou melhor sua proposta de jogo e saiu vencedor do confronto. Que sofram a dor, mas que tenham forças suficientes para remar novamente e acreditar que ano que vem o acesso será possível novamente. O trabalho foi bem feito ao longo do ano, com erros e acertos, como qualquer trabalho no futebol. A diretoria precisa ter discernimento para não jogar tudo fora, pois a continuidade renderá bons frutos.

A torcida merece os parabéns por sempre apoiar, sempre acreditar e sempre se fazer presente nos momentos mais importantes. Cada torcedor que hoje sente a dor, também deve sentir que o time fez o que pôde e que o melhor é dar continuidade ao núcleo do elenco, mantendo uma base e reforçando pontualmente. Assim, o caminho da glória será trilhado naturalmente.

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Edited by Douglas Menezes