15 de agosto de 2016

Prancheta Histórica: 10 anos da primeira Libertadores do Inter - Parte 2

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Para ler a parte 1 (recomendável), clique aqui!

PARTE 2 - A AMÉRICA É VERMELHA!


Fernandão levantando a taça da Libertadores de 2006 - a primeira da história do Inter (Foto: Internacional/Site Oficial)



Finalmente, o dia 16 de agosto de 2006 havia chegado. Já se passavam sete dias da doutrinação de Rafael Sóbis e era hora de conhecermos o campeão da Copa Libertadores do ano. São Paulo ou Internacional, Abel ou Muricy, gaúchos ou paulistas, tetracampeões ou campeões pela primeira vez. Como o jogo de ida havia sido vencido pelo Inter, no Morumbi, por dois a um, bastava um empate (ou vitória, obviamente) no Beira-rio para os colorados conquistarem seu primeiro caneco continental. Já o São Paulo precisava vencer por dois gols de diferença para ser campeão direto ou vencer por um gol de vantagem para levar a decisão para a prorrogação. Esses eram os ingredientes e as condições para a partida decisiva.

Os dois times tinham desfalques importantes. No lado do tricolor paulista, Muricy Ramalho não ia poder contar com o volante Josué - expulso no primeiro jogo - e com o atacante Ricardo Oliveira, que havia sido negociado com o Betis da Espanha e acabava por não conseguir uma liberação para participar do enfrentamento. Richarlyson e Aloísio entraram nas respectivas vagas. No lado colorado, Abel Braga não tinha a sua disposição o volante Fabinho, que também recebeu cartão vermelho na partida de ida, e Wellington Monteiro, que estava lesionado. Wellington, aliás, era o primeiro substituto para Fabinho. Como também ficou de fora, o zagueiro Índio começou jogando. Veja abaixo as escalações e o posicionamento inicial das equipes.





O jogo começa e os primeiros minutos são favoráveis ao São Paulo. O time, a exemplo do primeiro jogo, ataca a partir do uso seus alas. Além disso, tem um Danilo muito participativo. Na ida, o meia acabou sendo sacrificado pela expulsão de Josué, onde teve que atuar mais recuado durante, praticamente, toda a sua participação naquela partida. Nesse jogo, atuando na sua parte habitual do campo, o atleta era movediço pelo gramado, tendo liberdade e se sentindo à vontade para gerar jogo. Ótimos primeiros minutos do camisa dez são-paulino. Outra individualidade que se destacava era Aloísio. O artilheiro do time na competição era muito ativo no pivô, sendo um importante referencial para as jogadas. Nesse ritmo, foram duas chances claras criadas pelo time paulista (uma com Lugano e uma com Danilo), mas não aproveitadas.

Outra coisa marcante dos primeiros dez minutos minutos de jogo, foram o número de cartões amarelos: 3; dois para o Inter (Jorge Wagner e Fernandão); um para o São Paulo (Aloísio). O árbitro do jogo, o argentino Horacio Elizondo, mostrava que não iria tolerar atitudes ríspidas e de força excessiva, que aconteceram muito no primeiro jogo. Esse critério adotado por Horacio acabaria dando todo o controle disciplinar da disputa para ele.



Com Índio em campo, os esquemas eram espelhados. 3-5-2 nos dois times. O Inter variava para 5-3-2 na fase defensiva, atuando com bloco médio-baixo. Tinha altos níveis de disposição em campo, executando um encaixe de marcação de curta distância e carregado com muita pressão. Aos poucos, com o passar do tempo, o colorado foi diminuindo a superioridade do adversário e equilibrando as ações do jogo, tendo maior sucesso na sua ideia de negação de espaços. Além disso, a transição colorada, em ambas as fases, era sempre rápida e compacta. Aos 17 minutos, o jogo para por causa dos sinalizadores. A fumaça gerada pelos artifícios invadiu o campo e impossibilitou, temporariamente, a continuação do duelo. Libertadores pura!

O jogo retorna aos 22 minutos e continua equilibradíssimo até os 29, quando uma falha individual (improvável) pesa no confronto. O Inter tem uma falta para cobrar na intermediária, a bola é alçada na área, Rogério Ceni não segura firme, Fabiano Eller desvia e Fernandão empurra, de carrinho, para o fundo do gol. Dois capitães. Dois momentos distintos. O líder colorado fazia um gol na raça, na insistência, na garra. Fernandão marcava seu nome positivamente naquela história, enquanto Ceni, outro exímio comandante em campo, herói da conquista mundial um ano antes, um dos maiores nomes da história do clube, falhava e tornava a reação são-paulina mais complicada ainda.

Após o gol, o jogo persistiu com o mesmo cenário: São Paulo propondo, mas com dificuldades de infiltrar e crias chances de reais de gol, afinal, o colorado se defendia com muita concentração e obediência tática. E assim acabava a primeira etapa. O saldo dos primeiros 45 minutos acabou marcado pela eficiência do time vermelho, que aproveitou a chance clara que teve, enquanto o tricolor não aproveitou as suas e ainda falhou de forma determinante. Jogos extremamente equilibrados são decididos assim. Finais são decididas assim.



Apesar do final de primeiro tempo ter sido decepcionante para o time são-paulino, a equipe de Muricy não se abalou e, teve no início do segundo tempo, uma reviravolta interessante. Logo aos cinco minutos, o zagueiro Fabão empatava o jogo na mesma moeda que o Inter havia aberto o placar: bola aérea. Após cruzamento para a área colorada, Jorge Wagner não acompanha a linha de impedimento, Lugano cabeceia para Fabão, que ficava livre para finalizar cara-a-cara com Clemer. O tento vinha no momento certo, no início, evitando que maiores tensões tomassem conta do time logo. 

Aproveitando o momento anímico favorável, Muricy fez duas substituições: sacou Danilo e pôs Lenílson - um meia mais agudo - e tirou Richarlyson para colocar o atacante Thiago Ribeiro, recuando Leandro para o meio-campo. A ideia era, enfim, conseguir transformar o domínio de posse em agressividade.

O Beira-rio ficava calado e apreensivo no lado vermelho das arquibancadas. Dentro de campo, o colorado vivia seu momento mais frágil no jogo. A intensidade, tanto na fase ofensiva como na defensiva, era a menor registrada em toda a partida. O físico e o mental já não era mais os mesmos. Esse era o contexto das equipes até os 18 minutos.

O time de Abel Braga perdia níveis psicológicos e físicos, mas não perdia a sua organização em campo. O apoio e a proximidade entre os jogadores continuavam ali. E, aos 20 minutos, mesmo estando em baixa no jogo, o colorado chegava ao seu segundo gol. Fernandão recebe cruzamento na área, cabeceia para grande defesa de Rogério Ceni e, no rebote, acerta um passe para Paulo César Tinga completar para o gol. O estádio, que estava adormecido, explodia de alegria. O voluntarioso Tinga também era premiado com o seu nome na história. Me permita deixar a parte tática e analítica de lado, mas esse gol mostra, acima de tudo, o quão esse time era fadado a vitória, a conquista, ao sucesso. No momento mais adverso, saía um gol que mostrava que aquela Libertadores estava reservada para o Sport Club Internacional. Na comemoração, Tinga recebeu cartão amarelo por levantar a camisa. Como já tinha outro acumulado, acabou sendo expulso. Com isso, Fernandão passava a recompor no meio-campo.



Minutos depois do gol,  Muricy tira Edcarlos (assim como no primeiro jogo) e coloca um atacante: Alex Dias. O volume de jogo do São Paulo ia aumentando naturalmente. Os visitantes avançaram e ocuparam o seu campo de ataque, mas ainda sem oferecer enormes perigos à meta defendida por Clemer, exceto em um chute de fora da área de Lenílson e em cruzamentos esporádicos. Contudo, não era algo constante. O Inter, mesmo com um homem a menos, continuava coeso no sistema defensivo.

Abel fez sua primeira substituição aos 33 minutos. Tirou Alex e colocou o atacante Michel, que teria a mesma função de combatividade do jogo de sete dias antes. A segunda troca veio aos 37: entrava o zagueiro Ediglê no lugar de Rafael Sóbis. Seria ataque contra defesa até o final, MESMO.

Aos 39 minutos, o São Paulo foi premiado pela insistência. Aloísio faz mais um ótimo pivô, rola para Júnior chutar, Clemer falha, dá rebote e Lenílson empurra para as redes. O time paulista, agora, precisava de um gol para levar o jogo para a prorrogação. Faltavam cinco minutos mais os acréscimos para o tempo normal acabar. Momentos que pareciam uma eternidade para os colorados e poucos segundos para os são-paulinos.

O último fato importante de toda a final da Copa Libertadores de 2006 aconteceu aos 44 minutos. Júnior alça a bola no área, que vai na cabeça de Alex Dias na segunda trave. O atacante cabeceia livre e Clemer faz uma defesa espetacular. O goleiro colorado se redimia e garantia o título da competição. Ainda se passaram mais quatro minutos até o final da partida. Aos 48 minutos, Elizondo apitou pela última vez no enfrentamento. O Inter era campeão!

Não tem como dizer que essa conquista não foi merecida. Aquele Inter de 2006 não tinha grande estrelas, mas tinha um coletivo extremamente ajustado e consistente. Esteve entre os melhores durante toda a competição, seja em números, seja em desempenho. Nos dois jogos da final, foi a mesma coisa. Os momentos de superioridade colorada foram bem maiores que os momentos de equilíbrio ou de supremacia do São Paulo. Realmente, não havia o que contestar.

Nos tempos seguintes, o Internacional acabou conquistando o Mundial de Clubes, duas Recopas, uma Sul-Americana, mais uma Libertadores e inúmeros campeonatos regionais. Todos estes títulos tiveram sua devida importância, mas aquela primeira Libertadores foi diferente, foi mais emblemática. Foi ali que essa sequência de taças obtidas começou. Foi ali que o clube começou a subir degraus e a estabilizar uma galeria de troféus e de história que já merecia ter há muito tempo. A América foi pintada de vermelho em 16 de agosto de 2006 como uma obra de arte, que nunca vai cair em esquecimento.













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