8 de agosto de 2016

Prancheta Histórica: 10 anos da primeira Libertadores do Inter

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Parte 1 - A doutrinação de Rafael Sóbis!

Dia 9 de agosto de 2006. Você lembra o que fez nessa data? Se você é fielmente ligado ao futebol, você assistiu ao primeiro jogo da final da Copa Libertadores daquele ano. De um lado, o São Paulo, atual campeão do torneio e do mundo, e líder do Campeonato Brasileiro da época. A equipe do técnico Muricy Ramalho terminou a fase de grupos da competição continental com a quarta melhor campanha geral. Posteriormente, eliminou o Palmeiras nas oitavas de final, o Estudiantes nas quartas e, por fim, o Chivas Guadalajara nas semis. Do outro lado, o Internacional, que também estava entre os primeiros no campeonato nacional e buscava uma redenção após perder o Brasileirão do ano anterior de forma melancólica. O time de Abel Braga foi o segundo melhor da primeira fase no geral. Depois, eliminou o Nacional do Uruguai nas oitavas, A LDU de Quito nas quartas e o Libertad na semifinal. Um confronto mais que especial, de duas equipes coesas, de dois gigantes do futebol.

O jogo de ida - ou parte 1 - daquela final, acabou sendo um dos jogos mais eletrizantes de toda a competição. O São Paulo, como tinha uma campanha pior, sediou o primeiro jogo no Morumbi, que estava lotado e propagava uma pressão imensa. Era um clima clássico de Copa de Libertadores, mas que não abalaria um certo atacante do Inter que, naquela noite, se consagraria e teria uma doutrinação que mudaria totalmente a história do clube.

Sóbis, o grande protagonista do primeiro jogo da final da Libertadores de 2006 (Foto: Agência RBS).

A partida começa de uma forma muito ríspida. Entradas fortes por parte de ambos os lados, com muitas faltas. O São Paulo, na fase ofensiva, se posicionava no seu habitual 3-5-2 sempre tentando gerar jogo a partir do uso do seus alas (Souza e Júnior). Quando perdia a posse, exercia muita pressão no adversário portador da bola. Essa pressão, inclusive, é feita desde o campo de ataque. Já o Inter iniciou se defendendo em um 4-4-2 com bloco médio/baixo. Nos primeiros momentos, tinha muita dificuldade para executar uma transição pelo chão mesmo tendo bastante compactação na saída de bola., justamente pela forte pressão feita pelo time de Muricy. Basicamente, o posicionamento das equipes é o mesmo das imagens abaixo, que reproduzem as escalações daquela noite.





Entretanto, o cenário descrito acima durou poucos instantes. Como já dito, o jogo era ríspido e o juiz uruguaio, Jorge Larrionda, não teve paciência e tolerância com a agressividade dos dois times. Aos 10 minutos do primeiro tempo, o árbitro expulsou o volante Josué, do São Paulo, por dar uma cotovelada em Rafael Sóbis. Fato que acabaria por inverter as propostas de jogo.

Com um jogador a mais, o Internacional assumiu o controle do jogo. Compra a ideia de ter a posse e começa a dominar o meio-campo - setor onde o adversário perdeu a sua peça. Aos 18 minutos, o colorado já tinha 58% de posse de bola. Muricy optou por não suprir a ausência de Josué e a equipe paulista sofreu com isso. Agora, a transição colorada funcionava e os espaços apareciam. Foram momentos tenebrosos para o tricolor, que duraram da fatídica expulsão até os 27 minutos.


A partir dos 28, o São Paulo conseguiu negar espaços com maior eficiência devido a uma orientação de Muricy. O atacante Leandro passava a ser meio-campista (próximo flagrante abaixo). Finalmente o espaço deixado por Josué passava a ser ocupado com maior propriedade, mas com uma ressalva: nada de abandonar Ricardo Oliveira em eventuais contra-ataques. O veloz atacante do São Paulo, além de preencher o buraco no centro, não abdicava de aparecer na frente em contra-golpes esporádicos. Leandro se multiplicou em campo. Tudo para evitar e diminuir a intensidade colorada. 

O time de Abel tinha movimentações e inversões muito interessantes: Se Alex saía da esquerda para o meio, era Tinga que ocupava o espaço deixado por ele, enquanto Rafael Sóbis caía pela direita (local natural de Tinga). Se Fernandão saía da referência e virava uma espécie de enganche, Sóbis virava "9", e Alex e Tinga permaneciam nos respectivos lados. Além disso, Jorge Wagner e Ceará - dois laterais qualificadíssimos com a bola nos pés - jogavam "espetados" no ataque, gerando amplitude. Nada de jogadores sozinhos ou espaços mal ocupados.


Lembra que eu havia citado que o jogo foi um dos mais eletrizantes daquela Libertadores? Então, aos 38 minutos, ocorre mais um fato que mudaria a cara da partida novamente. Fabinho foi expulso por agredir Souza. Tinga vira volante e Fernandão recompõe pelo lado direito. Os dois times voltam a ter o mesmo número de atletas em campo (10) e, com isso, os torcedores e jogadores são-paulinos tiveram uma injeção de ânimo. A partida voltava a ter a cara dos primeiros 10 minutos: muita eletricidade. E, nesses moldes, o primeiro tempo encaminhou-se o fim.

O segundo tempo começou mais morno que o primeiro. Leandro voltava a ocupar seu posicionamento de atacante e o São Paulo tomava a iniciativa, sempre a partir de Júnior e Souza, que tratavam de buscar passes verticais (tinham qualidade para isso). O Inter se defendia com segurança e tentava encaixar suas acelerações. E foi numa dessas que a história começou a ser feita efetivamente.

O time paulista marcava em cima tentando forçar o erro adversário. O zagueiro Bolívar se recusa a rifar a bola e sai jogando com Edinho pelo centro. O volante carrega bem a bola e acerta um passe preciso para Rafael Sóbis, que entorta o zagueiro Fabão e acerta um belo chute no canto direito de Rogério Ceni. Golaço! Em uma das transições rápidas que o time de Abel não se cansou de fazer no jogo. Era o começo de uma doutrinação. Sóbis, de apenas 21 anos na época, não estava sendo tão participativo no jogo. No ataque vermelho, nomes como Tinga e Alex se destacavam mais. Mas o garoto de Erechim ia mostrando uma qualidade e uma estrela maior que de qualquer outro naquele lugar, naquele dia. Oito minutos do segundo tempo, Inter 1-0.


A vantagem no placar deu tranquilidade aos visitantes. O São Paulo sentia o gol, atingia o auge da sua desorganização no jogo e via seu oponente manter uma estrutura tática intacta e inabalável. Com muita aproximação e superioridade numérica, o meio-campo voltava a ser gaúcho (o avanço de Leandro também contribuiu para isso). O 2-0 era questão de tempo. E foi um tempo bem curto.


A bola não poderia sobrar para qualquer lugar que não fosse o pé direito brilhante de Rafael Sóbis. O jogador certo, na hora certa, no lugar certo. Um gol de oportunismo? Não! De jeito nenhum! Sóbis estava tão on fire, que parecia que aquilo era ensaiado. Parecia que ele havia visto a jogada antes de executá-la. Tudo era milimetricamente ajustado. Predestinado! 

Enquanto o colorado comemorava como nunca, o São Paulo se via cada vez mais longe do tetracampeonato. Naquele momento, o time de Muricy sentia a falta de uma substituição mais tática. Lenílson entrou momentos depois no lugar do sumido Danilo, mas o modelo, que precisava ser trocado, continuava igual. Não fazia mais sentido ter três zagueiros em campo com dois gols de desvantagem e com o meio-campo totalmente entregue.

Três zagueiros, aliás, foi o que o Inter adotou. Índio entrava em campo. O volume ofensivo são-paulino aumentava na garra, na vontade. A equipe paulista continuava a usar o jogo lateral para atingir o gol defendido Clemer, assim como a bola parada. Aos 30 minutos, em um dos tantos cruzamentos feitos para a área colorada, o zagueiro Edcarlos fica livre e acerta um belo cabeceio para diminuir o placar. Um gol que veio carregado de esperanças.

Dois minutos após o gol, Muricy saca o próprio autor do tento, Edcarlos, e coloca o atacante Aloísio. Finalmente um dos zagueiros deixava o jogo. Richarlyson, posteriormente, entrou no lugar do exausto Leandro para dar um gás na parte central do conjunto. O tricolor paulista pressionava e teve, nos últimos 20 minutos de jogo, seus momentos de mais consistência em toda a partida.

No Internacional, mais individualidades começavam a aparecer. Michel, que entrou no lugar de Sóbis que sentiu a coxa, combatia no meio-campo no lugar de Tinga, que estava cansado e não haviam mais substituições para serem feitas (Wellington Monteiro entrou no lugar de Ceará durante o segundo tempo). Fernandão prendia a bola na frente e deixava o tempo passar. O capitão colorado exercia sua função de comandante. Edinho marcava muito, não errava desarmes, ia na frente, parecia incansável. Um leão em todo o jogo. Clemer não foi muito exigido, mas quando se deu por necessária a sua intervenção, fez uma grande defesa aos 44 minutos.

Nem sempre o futebol é justo. Os deuses desse esporte costumam nos proporcionar coisas inesperadas. Mas não naquela noite. O Inter foi melhor em todos sentidos e merecia a vitória. E foi o que aconteceu. Larrionda apitou e só se ouvia a voz de colorados no Morumbi. A doutrinação de Rafael Sóbis, Edinho, Tinga, Abel e do Inter estava completa. O time gaúcho estava com uma mão na taça. Só restava um jogo para a conquista da América pela primeira vez e para encerrar um jejum de 14 anos sem grandes conquistas.

Mas o São Paulo não ia se entregar. Ainda haviam 90 minutos a serem disputados em Porto Alegre e o gol de Edcarlos ainda deixava os paulistas sonharem. Além disso, não havia saldo qualificado - o famoso "gol fora". Ou seja, uma vitória simples do tricolor paulista no Beira-rio levaria a decisão para a prorrogação. A vantagem vermelha era imensa, mas nada estava decidido antes do dia 16 de agosto de 2006.







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