12 de julho de 2016

Porquê o Flamengo tem um time com Zé Ricardo

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O mês era maio de 2014 e o time Sub-20 do Flamengo passava por um vexame de proporções catastróficas diante do rival Fluminense em Xerém. Em partida válida pela Taça Rio do Campeonato Estadual, o rubro-negro foi massacrado por 7x0 pelo tricolor. Sem querer tomar uma medida drástica a diretoria do clube preferiu esperar e manteve o trabalho da comissão técnica por mais seis meses. O rendimento abaixo da média e a queda de alguns jogadores que eram tidos como promessas em outras categorias levaram o departamento de futebol amador a efetivar um novo treinador: José Ricardo Mannarino. A missão era recuperar jogadores e montar uma equipe em plena Taça OPG, importante competição do futebol de base carioca.
Oriundo do Futsal, Zé Ricardo é um bom exemplo do caminho que os clubes podem adotar na escolha de seus treinadores - Foto: Gilvan de Souza/CRF

29 de maio de 2016, cerca de um ano e meio depois o mesmo José Ricardo Mannarino, agora já chamado apenas de Zé Ricardo debutava como treinador profissional no Flamengo. A vitória por 2x1 diante da Ponte Preta foi a segunda da equipe no Campeonato Brasileiro e serviu para dar tranquilidade no prosseguimento do bom trabalho que se revelaria a seguir. Tal qual na equipe Sub-20, um ponto fora da curva se revelou como peça-chave para que o profissional chegasse ao cargo como interino, situação que a diretoria do clube equivocadamente insiste em manter. Neste caso, um problema de saúde do então técnico Muricy Ramalho.

O resultado com o time Sub-20 muita gente já sabe. Sob o comando de Zé Ricardo os ‘’Juniores’’ rubro-negros venceram com sobras um Campeonato Estadual e foram campeões da última edição da Copa São Paulo. Além disso, aquela mesma Taça OPG, quando o técnico assumiu na metade da segunda fase, foi vencida pelo clube da Gávea. Isto sem contar boas participações em Campeonatos Brasileiros, Copa do Brasil e na Copinha de 2015.

A sonhada combinação ''desempenho + resultado'' foi realidade nos 18 meses em que Zé Ricardo esteve no comando técnico do Sub-20. E no profissional? Como será? Impossível prever! Mas podemos afirmar que o jovem treinador, em pouco mais de um mês, faz o melhor trabalho técnico no rubro-negro desde o primeiro semestre de 2011.
Zé Ricardo conversa com Guerrero. Centroavante luta para melhorar rendimento com a camisa rubro-negra - Foto: Gilvan de Souza/CRF

No início do ano o Flamengo fechou a contratação do medalhão Muricy Ramalho. Com um currículo vitorioso na bagagem e alguns dias de convívio no Barcelona, o técnico parecia ser unanimidade para comandar o bom elenco que o clube dispõe. Os meses se passaram e a equipe não conseguia ter um rendimento satisfatório. Oscilava demais dentro de um mesmo jogo e o discurso de um futebol baseado na construção curta de jogadas e da transição defensiva agressiva para retomar logo a posse de bola ficou apenas nas entrevistas coletivas.

Neste ponto reside talvez a maior diferença entre o trabalho de Zé Ricardo e Muricy Ramalho. O experiente treinador sabia o que queria, mas não parecia dispor da metodologia correta de treinamentos para a execução do modelo de jogo proposto. Não basta simplesmente falar e mostrar no vídeo. É preciso condicionar cognitivamente os jogadores para que tomem as decisões corretas nos diferentes momentos do jogo. Rachões, longos coletivos e exercícios distantes das situações de uma partida foram uma constante no Ninho do Urubu.

Desde que assumiu a equipe, Zé Ricardo vem fechando muitos treinamentos, algo natural em todo o mundo, mas um precedente que irrita a viciada imprensa esportiva brasileira. Do que foi possível perceber através de bons jornalistas com fontes confiáveis, e dos vídeos postados pela Fla TV no Youtube, a rotina de treinos mudou bastante e isso fica muito claro no desempenho da equipe dentro de campo.
De temperamento calmo, Zé Ricardo vai mostrando metodologia de treinos mais eficaz para a formação de um modelo de jogo

Em um dos vídeos é possível perceber a participação ativa de Zé Ricardo orientando os atletas durante uma ‘’roda de bobinho’’. O que parece ser brincadeira de boleiro ou apenas um aquecimento lúdico para muitos treinadores é, na verdade, um importante exercício de tomada rápida de decisões para quem tem a bola e trabalho de diminuição de espaços e postura corporal para quem tenta recuperar a posse.

Nos principais clubes europeus, os ''Rondos'', como são chamados esse tipo de exercício, fazem parte da rotina diária de treinamentos e levados muito a sério pelos jogadores, que veem a cada partida o que as particularidades do exercício podem trazer de positivo para o seu jogo. Este é apenas um pequeno exemplo das mudanças entre a metodologias de Muricy e Zé Ricardo.

Sistema Defensivo

Obviamente que a equipe rubro-negra ganhou dois reforços que elevaram bastante o nível do sistema defensivo. Rever e Rafael Vaz chegaram e se transformaram na dupla de zaga titular. Vale lembrar, porém, que ambos eram reservas em suas últimas equipes (Internacional e Vasco) e não tinham ritmo de jogo ao chegarem ao clube. O que influenciou de verdade na melhora foi um conjunto mais bem treinado e seguro do que precisa ser feito em campo.

Assim como com Muricy, o rubro-negro busca marcar por encaixes individuais de perseguição curta: quando o jogador marca e acompanha até determinado ponto o adversário que circula em seu setor. O modelo precisa ser muito bem assimilado e treinado para que os atletas não se afastem demais de suas áreas de influência e espaços apareçam. O funcionamento ainda não é perfeito no time de Zé Ricardo, mas a evolução é nítida na maioria dos jogos. Há mais aproximação entre os setores.
Neste momento do jogo contra o Corinthians vemos como a equipe se compacta, apesar dos encaixes por setor. Sete jogadores em espaço de menos de 20m de comprimento. Na sequência da jogada, o time retomaria a bola facilmente.

Dentro desse contexto, o treinador escala Marcio Araújo como volante e cria a primeira grande discórdia com a torcida rubro-negra. O clube conta com o colombiano Cuellar para o setor. O jogador é mais qualificado para iniciar as ações ofensivas e possui bom poder de marcação, mas Marcio tem executado muito bem a cobertura dos espaços que aparecem em virtude do estágio de evolução da equipe. No balanço defensivo tem sido muito importante também. Falta mais qualidade e inteligência com a bola nos pés, mas vem sendo um ponto de equilíbrio que a equipe precisa neste momento.

Sistema Ofensivo

O time se posiciona de duas formas diferentes. Alterna entre o 4-1-4-1, com Arão na segunda linha de meio, e o 4-2-3-1, com o camisa 5 ao lado de Marcio Araújo. A opção vai de acordo com o momento do jogo e também com o adversário. Seja qual for a estrutura, os conceitos são bem claros. A prioridade é a saída curta pelo meio, com os laterais bem abertos e projetados.
Time no 4-1-4-1, com Arão mais adiantado.
Time no 4-2-3-1, com Arão e Marcio Araújo lado a lado. Geralmente o posicionamento é adotado após vantagem no placar.

Há também a opção de uma saída mais longa, um passe rasteiro e forte buscando sempre Marcelo Cirino ou Guerrero, jogadores que sabem proteger a bola e atuar de costas para os adversários. Interessante notar que neste caso a equipe busca a aproximação para que as linhas de passe sejam geradas. Conceito claro e execução correta da proposta de jogo!
Outro exemplo do jogo contra o Corinthians, quando o Flamengo foi superior nos primeiros 55 minutos, mas acabou goleado. Percebemos nas extremidades(em amarelo), Jorge e Rodinei bem abertos, eles dão amplitude e tentam abrir defesa adversária. Marcio Aráujo, Arão e Alan Patrick se movimentam e buscam progredir com passes curtos. Na sequência da jogada, o camisa 5 quase fez um lindo gol.

Outra evolução da equipe é o preenchimento da referência quando Guerrero sai da região central do ataque. Pelas características do peruano, que continua devendo tecnicamente, isso é uma constante. Com Muricy, em diversos momentos, o time perdia a referência para uma bola mais direta e consequentemente profundidade. Rodava a bola sem conseguir penetrar. Com Zé Ricardo, Marcelo Cirino e Alan Patrick têm desempenhado de forma satisfatória essa função.
No jogo contra o Internacional, um exemplo claro: Guerrero sai da referência e Marcelo Cirino entra em diagonal. Mesmo irregular, camisa 7 é importante para a equipe atualmente.


'Ponta-Construtor' ou 'Ponta-Tradicional'

Mais uma alternância na forma em que Zé Ricardo monta o time. Muricy também utilizava esse precedente e isto foi uma boa herança. Éderson, Éverton e Fernandinho se revezam na função à esquerda da linha de meias do Flamengo. Três jogadores com características diferentes e que podem oferecer situações distintas.

Éderson é o clássico ''ponta-construtor'', assim como Mancuello também pode ser. Sai da esquerda buscando o espaço entre as linhas de marcação do adversário, o espaço ás costas dos volantes, e abre o corredor para a passagem de Jorge. Entra bastante na área para finalizar e se apresenta como opção de passe aos volantes e ao talentoso lateral. Ao contrário do que muitos imaginavam, o atleta não é o clássico armador cerebral. Sempre rendeu bem na carreira (Lyon e Lazio) desempenhado a função descrita acima.
Voltamos ao jogo contra o Corinthians para flagarmos o exato momento em que Éderson busca o centro campo e abre o corredor para a passagem de Jorge. Camisa 10 tem percepção tática para esse tipo de movimentação na hora exata. Na sequência da jogada o Mais Querido quase marcou.

Éverton não tem a mesma técnica que o camisa 10, mas compensa com muita movimentação e capacidade física. Até por isso é capaz de oferecer-se como opção de passe até mesmo no lado oposto do campo e ainda aparecer na definição da jogada no lado esquerdo. Aproveita também as extremidades e pode desempenhar as duas funções.

Fernandinho é o que podemos chamar de ''ponta-clássico''. Mesmo que tecnicamente seja uma contratação extremamente questionável, sabe desempenhar a função e foi importante, por exemplo, na vitória contra o Atlético/MG no último final de semana. Joga bem aberto e suas jogadas são baseadas no enfrentamento individual. Precisa de espaço para atuar. Não deverá firmar-se como titular, mas em algumas partidas será útil
Aqui Fernandinho com espaço para driblar e aproveitar mais uma característica do Flamengo de Zé Ricardo: a diversidade de opções de passe no último terço do campo, algo que já foi citado por três treinadores (Edgardo Bauza, Milton Mendes e Marcelo Oliveira) adversários neste Brasileirão. Resultado: gol contra o Galo. Equipe ainda precisa trabalhar melhor as finalizações

Prever até onde o Flamengo pode chegar neste Brasileirão é uma incógnita. O elenco é bom e cheio de peças que oferecem variáveis interessantes de jogo, principalmente nas mãos de quem vem provando saber muito bem o que faz e o que quer com a equipe. Zé Ricardo, assim como o time rubro-negro, ainda vai evoluir. Que a diretoria do clube tenha o discernimento de detectar o enorme potencial de crescimento que o seu profissional tem, dê continuidade ao trabalho, e ofereça ferramentas para que esse processo seja cumprido.

Rodrigo Coutinho - @RodrigoCout


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