7 de maio de 2016

Prancheta Histórica - Steaua Bucarest quebra barreiras com as mãos do 'santo Duckadam'

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O Linha Alta estreia neste sábado mais uma novidade para os amantes do futebol. É a ‘’Prancheta Histórica’’. Comemoramos aqui o aniversário de conquistas importantes para a história do futebol e contaremos os detalhes táticos e contemporâneos das equipes vencedoras. E este dia 07 de maio marca a comemoração de 30 anos do maior título da história do futebol romeno. Em 1986 o Steaua Bucarest batia o Barcelona na final da Champions League e se tornava o primeiro time do leste europeu a conseguir a façanha.

Em Pé: Boloni, Belodedici, Iovan, Piturca, Bumbescu, Duckadam. Agachados: Majearu, Lacatus, Balan, Balint, Barbulescu

A conquista teve como nome principal o goleiro Helmuth Duckadam, que defendeu nada menos que quatro pênaltis cobrados pelos jogadores do Barcelona e viu sua equipe vencer a disputa dos penais por 2x0. Além de colocar o Steaua no mapa do futebol, a conquista serviu de reforço ao plano ideológico do sanguinário ditador romeno Nicolas Ceaucesco, que comemorou efusivamente o triunfo de seus compatriotas. Depois do time de Bucarest, o Estrela Vermelha foi o único time do leste europeu a repetir a faça, mas na temporada 1990/1991.

Helmuth Duckadam corre e comemora o título do Steaua Bucarest. Goleirão fez história e ainda foi presidente do clube na década passada.

A Champions de 85/86 era a primeira depois da punição aos times ingleses após a tragédia de Heysel. Na temporada anterior, torcedores do Liverpool causaram um grande tumulto na final contra a Juventus e o balanço da briga foi a morte de 39 pessoas, além de outras dezenas de feridos. A Uefa decidiu pela exclusão por cinco anos de clubes britânicos das competições organizadas por ela. Logicamente o nível técnico da competição foi um pouco mais baixo, mas isso não menospreza a conquista do Steaua.

O título foi conquistado de forma categórica. Em Sevilla, no estádio Sanchez Pizjuan abarrotado de torcedores do Barça, os romenos impediram o que seria o primeiro caneco culé na competição. Mesmo com uma equipe inferior tecnicamente soube levar o empate até o fim dos 120 minutos de tempo regulamentar e prorrogação. Nos pênaltis, a estrela de Duckadam, que viria a ser presidente do clube em 2008, brilhou. O arqueiro protagonizou algo que poucas vezes na história do futebol se teve notícia: defendeu quatro cobranças e virou herói nacional.

Steaua

Treinado por Emerich Jenei, o campeão tinha uma equipe de muita técnica no meio-campo, mas pouca infiltração e agressividade no ataque. Como a grande maioria das equipes da época, pecava demais na compactação entre os setores e por isso dava muito espaço ao adversário, mas a marcação que obedecia a longos encaixes individuais funcionou durante a campanha. Muito em função da capacidade de combate dos atletas e do espírito guerreiro que a equipe exalava.

Steaua com a bola se montava desta maneira. Muita movimentação entre os homens de meio, trocas de posição, mas sempre pelo centro do campo. Pouco jogo pelas pontas.

O desenho tático variava de acordo com as fases do jogo. Quando tinha a bola, Emerich, que foi atleta do próprio Steaua e treinou a seleção nacional em 1990 e 2000, armava sua equipe em um 4-3-1-2. Detalhe para o posicionamento praticamente fixo de Lacatus pela direita e do bom centroavante Piturca no centro do ataque. Boloni era o volante centralizado e responsável pela saída de bola junto com Majearu e Balan, que acabou jogando a final na vaga do titular Tudorel Stoica.

A saída de bola ficava a cargo dos volantes que se aproximavam bastante e procuravam progredir com troca envolvente de passes e bastante movimentação, mas muito baseada no centro do campo. Pouco jogo pelos lados.

Mais à frente, o homem do elo entre o meio e ataque, o camisa 10 Balint. Todos os jogadores de meio eram extremamente técnicos, mas naquela final afunilaram demais as jogadas e encontraram dificuldades para criar. Já sem a bola, o time se montou num 4-2-3-1, com o ótimo Majearu abrindo para marcar os avanços do lateral-direito espanhol. Balan se fixava ao lado de Boloni e Balint ficava um pouco mais à frente.

Já sem a bola, time romeno mudava um pouco o posicionamento. Majeanu abria para a esquerda e Balan ficava ao lado de Boloni. Time marcava praticamente de forma individual e por isso dava espaços demais.

Na defesa destaque para o então jovem zagueiro Belodedici, que no dia da final tinha 22 anos. Na sequência da carreira foi titular da melhor seleção romena de todos os tempos, a que jogou a Copa de 1994. Ao seu lado o experiente Bumbescu, na lateral-direita o capitão Iovan, e na esquerda Barbulescu. Todos tinham muito poder de marcação, mas algumas falhas ocorriam em virtude do modelo de marcação já citado. Com a bola era comum ver Iovan abrindo muito pouco e auxiliando bastante os volantes na saída de bola. A amplitude pelo lado direito era tarefa de Lacatus. Do outro lado, Barbulescu apoiava mais o ataque.

Aqui o flagrante da disposição tática sem a bola e os encaixes individuais. Lacatus acompanha o lateral-esquerdo do Barça, fora da imagem. 
Este flagra mostra o efeito nocivo da marcação individual. Reparem como Bumbescu se afasta demais de sua zona para marcar o atacante do Barça. Belodedici está na 'sobra' e Schuster aproveita o espaço para se infiltrar e quase marcar de cabeça após o cruzamento da esquerda.

A concentração de jogadores pelo meio era muito grande. O time tinha posse, mas produzia pouco, tinha pouca profundidade. Na final contra o Barcelona este detalhe fez com que o Steaua fosse dominado a maior parte do tempo. Tendo momentos de predomínio apenas nos minutos iniciais do segundo tempo e na parte final da prorrogação. Na temporada seguinte o problema de criatividade da equipe seria resolvido. O craque George Hagi passaria a fazer parte do elenco. Meses depois, o mesmo Steaua Bucarest foi campeão da Supercopa Europeia, batendo o Dynamo Kiev na final.

Eis o flagra do lateral Iovan fechado durante a saída de bola de sua equipe. Reparem como Balan sai do meio-campo para dar opção de passe pela direita e Lacatus volta bastante para também dar opção. Time afunilava demais as jogadas.

Como era uma época de pouco intercâmbio e contratação de jogadores estrangeiros, o Steaua foi campeão com uma equipe exclusivamente romena. Já o Barça tinha dois estrangeiros, o volante alemão Bernd Schuster, o mesmo que foi treinador do Real Madrid, e o atacante escocês Archibald. Tanto o time de Bucarest quanto os blaugranas não tiveram campanhas muito regulares naquela competição. Os campeões venceram apenas quatro de seus nove jogos. Perderam duas partidas e empataram três vezes. O ataque fez 17 gols, média 1,7, e a defesa sofreu somente cinco gols.

Outro detalhe interessante do time romeno é o número de atletas que viraram treinadores após encerrarem suas carreiras. Praticamente todos eles tiveram sucesso. Talvez o maior deles seja o reserva Angel Iordanescu, que inclusive entrou na final e teve boa atuação. Iordanescu fez muito sucesso no Oriente Médio e é o atual comandante da seleção nacional. Boloni, Iovan, Barbulescu e Piturca foram outros que se destacaram. Quem teve um fim trágico foi Balan, que se suicidou em novembro de 2015.

O Barça

Esqueça a famosa filosofia de posse de bola e construção de jogadas com a bola de pé em pé e muita paciência. O Barcelona comandado pelo inglês Terry Venable não tinha essa característica. Saía muito na base da ligação direta e buscando a velocidade de Carrasco nas costas dos laterais.

Assim jogava o Barcelona comandado pelo inglês Terry Venable

Quando a bola parava no meio tinha qualidade na trinca formada por Schuster, Pedraza e Victor Muñoz. O talentoso Marcos Alonso era o vértice mais avançado do losango de meio-campo, mas buscava bastante as pontas também. Havia muita movimentação do trio de volantes e infiltração na defesa adversária.

Na marcação era um time intenso e conseguia mais compactação que o adversário da final. Isto aconteceu devido o sistema de adotado. O Barça marcava por zona, e na final a defesa funcionou muito bem, mostrando boa coordenação e momentos de pressão na saída de bola do adversário.

O Jogo

O Barcelona foi melhor que o Steaua Bucarest na maior parte do jogo. Dominou o primeiro tempo e a segunda etapa a partir dos 20 minutos. Na prorrogação a história se repetiu, mas os blaugranas terminaram exaustos e levando alguns sustos. O time catalão pecou no excesso de ligações diretas. Quando botava a bola no chão e buscava as tabelas e jogadas de aproximação conseguia chegar com mais perigo. Teve pelo menos cinco chances claras de gol, todas mal finalizadas pelos seus atletas.

O Steaua assustou mais em chutes de fora da área e nos momentos em que foi melhor não criou muitas chances. Nas penalidades, porém, Helmuth Duckadam, que mostrou-se inseguro em alguns lances com bola rolando, teve capacidade e defendeu quatro pênaltis, dois deles muito bem cobrados. Alexanko, Pedraza, Pichi Alonso e Marcos Alonso foram as vítimas do arqueiro. Enquanto que Lacatus e Balint anotaram para os romenos. Majearu e Boloni desperdiçaram suas cobranças.

Ficha do Jogo
Steaua Bucarest (2)0x0(0) Barcelona
Final da Champions League – Temporada 1985/1986
07 de maio de 1986 – Estádio Sanchez Pizjuan – Sevilla – Espanha
Árbitro: Michel Vautrot (FRA)
Cartões Amarelos: Julio Alberto, Lacatus, Boloni, Bumbescu

Steaua: 1 - Duckadam; 2 - Iovan, 6 - Belodedici, 4 - Bumbescu, 3 - Barbulescu; 8 - Majearu, 5 - Balan (Iordanescu 72'), 11 - Boloni; 7 - Lacatus, 9 - Piturca (Radu 112'), 10 - Balint
Tec: Emerich Jenei

Barcelona: 1 - Urruti; 2 - Gerardo Miranda, 3 - Migueli, 6 - Alexanko, 4 - Julio Alberto; 9 - Pedraza, 5 - Víctor Muñoz, 8 - Schuster (Moratalla 84'),  11 - Marcos Alonso; 7 - Carrasco, 10 - Archibald (Pichi Alonso 111')
Tec: Terry Venables


Rodrigo Coutinho - @RodrigoCout

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