23 de maio de 2016

O Grêmio precisa valorizar Luan

Compartilhe nas redes sociais

Era 21 de janeiro de 2011, o Grêmio perdia em pleno Olímpico Monumental para o glorioso São José/RS. O jogo se encaminhava para um término melancólico para a torcida gremista, mas o então craque do time decidiu aparecer: Jonas, em cinco minutos e sob vaias, virou a partida para o Tricolor. Na saída, foi ao vestiário escoltado por seguranças e muito xingado por parte da torcida presente.

Luan em ação contra o Flamengo, pela segunda rodada do Brasileirão 2016 (Foto:Lucas Uebel/Grêmio FBPA)

Jonas era o principal jogador do elenco. Acabara de ser artilheiro do Campeonato Brasileiro, fazendo 23 gols e colocando o Grêmio na Libertadores da América de 2011. Mas, por algum motivo até hoje desconhecido, não bastava. Três dias depois, Jonas aceitou uma proposta do Valencia, foi vendido por menos de um milhão e meio de euros ao clube espanhol e o ano do Grêmio acabou naquela segunda-feira. Uma breve lembrança do que aconteceu em 2011 para tentar entender o que acontece hoje.

Claro, ninguém do atual elenco gremista tem o peso que Jonas tinha naquele elenco de 2011, mas o Grêmio tem em mãos um dos atacantes mais promissores e completos do Brasil. Ele se chama Luan Guilherme de Jesus Vieira. Camisa 9 da Seleção Brasileira Olímpica, melhor atacante do Brasileirão 2015 pela Revista Placar, pré-convocado por Dunga para a Copa América de 2016 e protagonista em duas goleadas sobre o rival Internacional.

Mas, como Jonas, Luan não consegue cativar a torcida gremista inteiramente. Luan é vítima, não podemos negar, de algo que acomete jovens jogadores: a oscilação. É natural e compreensível a algumas vezes aparente irregularidade. Mas atuações ruins são mais destacadas que as boas. Por quê?

Busco respostas para esse desgosto pelo jogador e esbarro em números absolutamente positivos e grandes atuações pelo Grêmio e pela Seleção Olímpica. Será que o modo como surgiu, durante uma Libertadores, afetou a visão da torcida em relação a ele? Torcidas esperam sempre um novo Neymar a cada menino que ganha chance no elenco principal. Se o jogador não é tão bom assim, se torna automaticamente uma ''decepção'',

Luan fez suas primeiras partidas com a camisa do Grêmio em 2013, no Campeonato Brasileiro sub-20 daquele ano. Jogando como falso 9 no 4-3-3 de Marcelo Mabília, Luan foi o grande destaque daquele Grêmio que jogava o melhor futebol do campeonato. O ano acabou e Luan logo subiu para o plantel principal, para ser parte do ‘’Grêmio B’’, que jogaria algumas partidas no Gauchão.

A titularidade e o destaque nas primeiras partidas do ano o levaram ao grupo principal, treinado por Enderson Moreira. À época, Enderson variava entre dois esquemas: o 4-2-3-1 e o 4-3-2-1. Luan se adaptou rapidamente e tornou-se uma esperança em um Grêmio sem brilho ofensivo.

Mas as coisas desandaram, Enderson foi demitido e Felipão chegou para comandar a equipe no restante da temporada. Luan, agora, seria extremo no 4-1-4-1 de Luiz Felipe Scolari. O rendimento caiu e a titularidade nem sempre foi uma realidade. O jogador passou de muito promissor à incógnita.  O ano seguinte começou um pouco melhor para Luan. Vários jogadores ofensivos importantes deixaram o clube e Luan, agora, teria mais espaço. Começou bem e fez um bom Campeonato Gaúcho, mas sem brilho.

Assim como na época de Enderson, o time desandou e mudou de treinador. Dessa vez tudo mudaria. Roger Machado chegou, devolveu o jogador à sua posição de destaque nas categorias de base e obteve êxito: Luan foi o melhor atacante do Brasileirão atuando como falso 9. Dez gols e sete assistências, Grêmio na Libertadores e Luan consolidado como o grande jogador do time.

Até que surge um problema: o Grêmio não faz tantos gols assim. Precisa de um centroavante, diziam os mais simplistas. Por essa e mais algumas questões (saída de bola, por exemplo), Roger começou a testar Bobô à frente e Luan como extremo, como jogava com Felipão.

Luan é, acima de tudo, um jogador de movimentação inteligente. Como falso 9, transformava a referência dos zagueiros em nada, se movimentava por todos os setores do ataque, gerava espaços e superioridade, aproveitava muito bem a entrelinha rival e até buscava a bola com os volantes para iniciar as jogadas. Tornava o Grêmio imprevisível.

Jogando como extremo, Luan perde a liberdade para fazer esses movimentos. Precisa recompor pela faixa lateral e, se não o fizer, desequilibrará o sistema defensivo da equipe. Luan não fica fixo em um dos lados quando a equipe tem a bola, isso gera conflito com suas próprias características, mas tem menos liberdade para, de fato, ser o jogador que é.

Luan está longe de ser um mau extremo. A questão é utilizá-lo onde se encaixa melhor e torna o time, como um todo, mais fluente. Roger peca em supervalorizar a presença de um centroavante no contexto em que está. Se houvesse um Lucas Pratto no elenco, era admissível ter um jogador de referência em campo. Mas não há Lucas Pratto. Há Bobô, um ótimo reserva, mas que prejudica o caminhar do oscilante Grêmio de 2016 pela sua escassez de movimentos.

Roger deveria passar por um exercício de ACEITAÇÃO nesse começo de Brasileirão: o Grêmio se vira com a saída de bola terrestre e os meias entrando na área para finalizar – como em 2015 -, não precisa de Bobô para uma eventual ligação direta ou um pivô aqui e ali.

A parte da torcida gremista que desdenha de Luan deveria lembrar-se do dia 24 de janeiro de 2011 a cada crítica infundada que faz ao melhor jogador do elenco. E cada grito de ‘’preguiçoso’’ que ecoa na Arena é um gol que Jonas faz pelo Benfica. Que aprendamos a valorizar as pessoas certas no futebol e na vida. 

@_nicolasmuller

Deixe um comentário

Todos os comentários postados são de responsabilidade de seus autores. É necessário estar logado no facebook para comentar.

 

Bem-vindo ao Linha Alta. Site com conteúdo futebolístico.

© Linha Alta 2016

Edited by Douglas Menezes