9 de maio de 2016

Guia Tático do Brasileirão - Flamengo

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Comandado por um Muricy Ramalho tentando renovar-se após meses de descanso, o Flamengo inicia o Campeonato Brasileiro ainda buscando o melhor ajuste de sua equipe. Com quase quatro meses de trabalho, o vitorioso treinador ainda não conseguiu dar ao hexacampeão brasileiro o funcionamento tático ideal para que o clube seja postulante ao título. Há muito potencial de crescimento e conceitos animadores, mas esses mesmos conceitos ainda não foram colocados em prática de forma minimamente satisfatória. Nem mesmo uma vaga na Libertadores pode ser considerado algo palpável no cenário atual.

Guerrero está devendo atuações mais convincentes. Atacante tem perdido muitos gols e irritado a torcida. Foto: Gilvan Souza- CRF

Semifinalista do Campeonato Estadual e com duas derrotas em três da Copa do Brasil, o rubro-negro também caiu nas semifinais da Copa da Primeira Liga e o clima não é nada bom com sua imensa torcida. Há cobrança por rendimento melhor das principais estrelas do time e o pífio ano de 2015 ajuda no clamor. No clube, porém, é unânime a opinião de que, exceto em alguns jogos, a equipe ainda não alcançou tudo o que pode render. Com os reforços de Juan, Willian Arão, Rodinei, Mancuello, Cuellar, Alex Muralha, Fernandinho e Chiquinho, além da promoção de cinco atletas campeões na Copa São Paulo de Futebol Junior, o Flamengo qualificou mais o seu elenco. Isto se soma ao pesado investimento feito pela diretoria no pacote de cobranças que o plantel e a comissão técnica terão que corresponder até dezembro.

Esqueça o ‘’Muricybol’’! Tricampeão brasileiro com o São Paulo com um futebol de muita intensidade na marcação e tendo como principal fonte de criação os contra-ataques, e jogadas de bola parada, o experiente treinador parece renovado no ponto de vista tático. Após algumas semanas acompanhando todo o processo de formação de atletas e de treinamento do Barcelona, vem tentando implementar alguns conceitos parecidos com os usados pelo clube catalão no Flamengo. Os princípios são claros e mais alinhados com o futebol moderno, mas a execução precisa melhorar muito.

Um detalhe que pode atrapalhar o Flamengo na busca pelo título é a falta de uma casa para jogar. Com Maracanã e Engenhão entregues ao Comitê Olímpico Internacional para as Olimpíadas, o rubro-negro tem mandado suas partidas de menor apelo no interior do estado (Volta Redonda ou Macaé) e jogado as de maior apelo fora do Rio(Cariacica, Brasília, Juiz de Fora, São Paulo). O ‘’rubro-negro itinerante’’ tem dado mostras de cansaço excessivo e queda técnica ao longo da temporada. Mais um desafio para Muricy e sua comissão: ‘’rodar’’ a equipe de forma inteligente e ao mesmo tempo não perder o padrão tático.

ESTRUTURA TÁTICA

Muricy monta o Flamengo na maioria das vezes num 4-1-4-1. Neste próprio esquema há uma variação. Quando Mancuello é escalado aberto pela esquerda, o argentino se transforma em mais um articulador quando o time tem a bola. Busca as costas dos volantes adversários e o jogo entrelinhas, abrindo o corredor do campo para o apoio de Jorge. Neste caso, Alan Patrick faz companhia a Arão no meio. Caso escale Émerson Sheik pela ponta-esquerda, Mancuello volta à meia e o 4-1-4-1 torna-se mais posicional, com menos trocas de posição.
Com Émerson Sheik, Flamengo fica armado num 4-1-4-1 mais posicional
Este exemplo mostra Mancuello saindo da ponta para o meio e buscando a intermediária, as costas dos volantes adversários. Argentino sabe fazer muito bem essa função e Jorge sobe de rendimento, pois tem opções mais inteligentes de jogadas a partir do posicionamento do camisa 23. Time fica mais equilibrado, cria pelos dois lados.


FASE OFENSIVA

A construção das jogadas obedece o princípio de troca de passes curtos e intensa movimentação para abrir os espaços na defesa rival. No lado direito, com Rodinei, Arão e Cirino há muita aproximação, e é por ali onde o rubro-negro cria as melhores jogadas através de triangulações com os citados.

O lado esquerdo não tem oferecido a mesma eficiência. Jorge não faz uma temporada do nível do ano passado e tem aparecido pouco nas tramas ofensivas. O jovem camisa 6 tem tendência de afunilar as jogadas, assim como Émerson Sheik, e o setor não oferece tanta amplitude, tornando-se mais facilmente anulado. Quando Mancuello atua aberto, o lateral costuma crescer de produção, pois conta com melhores opções de jogada, vide o posicionamento inteligente do gringo.
Exemplo claro do desenho tático do Flamengo com a bola. Mancuello busca o espaço entrelinhas do Boavista e o centro do campo abre o corredor para Jorge, que vai receber na frente e cruzar. Arão e Alan Patrick dão apoio pelo meio, e Cirino amplitude.

O argentino infiltra bastante na última linha de defesa adversária também, assim como Willian Arão. Quando os dois infiltram ao mesmo tempo o time sente demais, pois não consegue articular as jogadas. Guerrero sai bastante da área e abre espaço para infiltração de ambos, assim como as entradas em diagonal de Marcelo Cirino e Émerson Sheik.

Mancuello infiltra na última linha de defesa do adversário e recebe em profundidade de Rodinei. Esta jogada já rendeu gol para o Flamengo

Como citado, a produção ofensiva, porém, precisa de ajustes. A equipe oscilou bastante até aqui e ainda não se mostra fluente neste setor, mesmo com vários jogadores de qualidade. A filosofia e o modelo estão claros, mas a execução ainda é irregular. A pressão por resultados acaba atrapalhando também, e a equipe acaba se descontrolando com certa facilidade, abandonando o modelo proposto e caindo de rendimento

TRANSIÇÃO OFENSIVA

Como procura construir suas jogadas através de passes curtos, aproximação e consequentemente posse de bola, o Flamengo evita a ligação direta. Esse princípio é muito claro e foi tema das entrevistas de Muricy Ramalho no início do ano. O goleiro Paulo Victor, inclusive, evoluiu bastante com os pés e já não rifa a bola com a mesma facilidade de antes. Quando está pressionado e sem opção de passe, executa um passe longo na direção de um dos laterais, sempre ‘’tirando o peso da bola’’ para facilitar o domínio e o retorno da posse no chão, de pé em pé.

Contra adversários mais fechados, Cuellar, volante colombiano de ótimo passe, se infiltra entre os zagueiros e o rubro-negro executa a ‘’saída de 3’’. Rodinei e Jorge se projetam no campo adversário e ficam colados a linha lateral para gerar amplitude e tentar abrir o adversário. Os pontas fecham um pouco e ‘’descem’’ o campo para se juntar aos apoiadores, e gerar linhas de passe para Cuellar e os zagueiros. A qualidade e a frequência com que é feita esta saída ainda requer ajustes, como todo o restante, mas os atletas já mostraram entender bem esse conceito. Falta apenas mais velocidade na troca de passes e menos precipitação de Wallace, que costuma arriscar passes mais ousados fora do momento adequado.
Exemplo de saída 3. Reparem o posicionamento de Jorge, um dos laterais, bem aberto e no campo do adversário

A ‘’saída de 3’’ não é um princípio absoluto para sair jogando no Flamengo. Cuellar também é visto frequentemente num posicionamento mais tradicional de volante na saída de bola e os laterais mais recuados. O colombiano se destaca também nessa movimentação e costuma dar muitas opções de passe.
Aqui um exemplo de saída mais tradicional, com Cuellar dando opção de passe aos defensores e se movimentando bastante. Ele faz muito bem essa função


TRANSIÇÃO DEFENSIVA

Uma das características de jogo do Barcelona é a pressão intensa assim que se perde a posse de bola. Não importa se o lateral-esquerdo está no flanco direito em determinada ação ofensiva, se ele perder a posse, vai executar forte pressão para retomá-la o quanto antes e mais perto do gol possível. Muricy tenta implementar isso no Flamengo. Mais do que tático, este é um exercício cognitivo do atleta, uma rápida mudança de atitude. No Barcelona é muito bem executado pois se joga desta maneira desde as categorias inferiores. No Flamengo ainda não.

Ainda falta mais intensidade e leitura dos atletas que estão mais próximos daquele que começa a executar pressão. Isto faz com que o adversário tenha espaço se conseguir se livrar da primeira pressão. Se bem treinado e entendido pelos jogadores, é um conceito que pode gerar muitos frutos ao Flamengo.
- Neste momento, o Flamengo havia acabado de perder a bola, mas reparem como Mancuello e Arão pressionam Nenê no clássico contra o Vasco. Reparem que Rodinei e Wallace se aproximam para ajudar, mas atletas mais distantes não buscam se agrupar


FASE DEFENSIVA

O Flamengo se defende basicamente com uma marcação média-alta. Há períodos do jogo em que a equipe busca sufocar o adversário assim que a bola entra em disputa e outros em que a pressão se intensifica perto do círculo central. A questão é a lentidão da dupla de zaga. Wallace e Juan são atletas sem velocidade para se recuperar a tempo no caso de um bom lançamento e a infiltração de um jogador adversário em condição legal. O camisa 4 se posiciona muito bem e não sofre tanto, mas Wallace costuma ser vulnerável nesse tipo de jogada e vive péssima fase.

A abordagem de marcação também varia bastante e costuma seguir as características dos jogadores mais próximos da bola. Exemplo: Jorge não é tão agressivo, mas Cuellar e Rodinei tiram espaço do adversário e fazem pressão. Falta padrão nesse ponto. O sistema é de curtos encaixes, mas diante de adversários mais organizados e qualificados a equipe costuma se descompactar. São resquícios dos longos encaixes individuais, que foram realidade na temporada passada com Oswaldo de Oliveira. Ainda falta para os atletas mais percepção quando se veem diante de situações assim, algo que deve ser corrigido nos treinamentos.
Linha de marcação de meio-campistas um pouco à frente da faixa central do campo


DESTAQUE TÁTICO

O jogador mais importante taticamente para o Flamengo tem sido Willian Arão. Compõe bem defensivamente e é elemento surpresa nas ações ofensivas. Inclusive entrando bastante na área, dando assistências e marcando gols. Muita dinâmica, característica essencial para um meio-campista do futebol moderno.

Contratado junto ao Botafogo para esta temporada, Arão vem sendo o destaque do time / Foto: Gilvan Souza - CRF

Rodrigo Coutinho - @RodrigoCout







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