9 de maio de 2016

Guia Tático do Brasileirão - Cruzeiro

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O Cruzeiro é mais uma das equipes que inicia o Campeonato Brasileiro de 2016 preparando um novo trabalho de comissão técnica e tentando apagar o desempenho na edição do ano passado. Após conquistar um bicampeonato (2013 e 2014), 2015 ficou abaixo do esperado para a Raposa, que terminou a competição no meio tabela. Nessa temporada, alguns jogadores que estiveram nos dois títulos ainda permanecem formando uma combinação interessante com outras peças novas. O comandante escolhido para chefiar o grupo foi Deivid que, até então, nunca havia sido técnico de futebol. A aposta da direção cruzeirense vinha com resultados importantes, como a vitória no clássico contra o Atlético-MG e a liderança (tendo a melhor defesa) na primeira fase do Campeonato Mineiro. Entretanto, a pressão da torcida por melhor desempenho e a fatídica eliminação na semifinal do estadual para o América Mineiro não sustentaram o jovem técnico. A busca pelo terceiro título brasileiro em quatro anos será missão de outro treinador, que encontrará uma base inacabada de time.

Deivid durou poucos meses no comando do Cruzeiro (Foto: Washington Ales/ Light Press).

ESTRUTURA TÁTICA

A estrutura tática do Cruzeiro, com Deivid, consistia em um 4-3-3 com um volante mais fixo à frente da zaga (Henrique) junto com dois jogadores mais “soltos” e alinhados (Ariel Cabral e Lucas Romero). A linha de defesa era formada por Mayke, Bruno Rodrigo, Manoel e por Juan Sánchez Miño – uma das boas contratações para a temporada. O goleiro era, como sempre, o regular e experiente Fábio. A linha de três no ataque tinha o jovem e veloz Alisson pela esquerda, Élber ou, por vezes, De Arrascaeta ou Matías Pisano (outro estrangeiro contratado nesse ano) na direita, e no centro, um “falso 9”: Rafael Silva ou Willian. Era um time bem móvel e de “decisões rápidas”.



FASE OFENSIVA


4-3-3 de Deivid no Cruzeiro.

Deivid tinha um conceito de um ataque muito rápido. O 4-3-2-1/4-3-3 da equipe de Minas contava sempre com pontas dinâmicos. A referência móvel tirava jogadas de “pivô”, mas trazia muitas infiltrações por trás da defesa, sucessos em duelos de 1x1 e eficiência em jogadas onde era necessário a capacidade de carregar a bola. Sem contar as constantes inversões de posições. No flagrante acima, já é possível perceber isso. Reparem que Élber aparece atuando pelo meio e Rafael Silva caindo pela direita. Isso era uma atividade constante do coletivo. Nesse próprio jogo contra o Atlético em que o frame foi tirado, muitas vezes Allano (atuou no lugar de Alisson que ficou de fora do clássico) e Élber apareciam verticalizando pelo meio, deixando Rafael Silva encarregado de buscar profundidade. Preenchimento na área e apoio dos laterais também eram pontos positivos introduzidos por Deivid, mesmo com a má fase de Mayke, irregularidade de Fabrício e Fabiano (ambos foram para o Palmeiras) e com a improvisação de Sánchez Miño na esquerda.

Outra dinâmica de inversão era importante no time: a dos pontas com os meias-centrais, com Lucas Romero invertendo com o extremo direito e com Ariel Cabral trocando com o ponta-esquerda. Isso fica bem exemplificado na imagem abaixo, mais uma vez tirada do clássico mineiro. Élber vai aparecendo pelo meio e Lucas Romero é quem faz a função do ponta de ir em busca da linha de fundo. Tudo isso, com a intenção de confundir a marcação para liberar espaços. E isso acontece. Vejam que Lucas tem campo livre para avançar, porém, não recebe o passe e a jogada se encerra. Essas participações de Ariel e Romero eram bem interessantes e também ocorriam pelo centro. Os dois eram peças significativas no conjunto de Deivid.

A inversão de posição era comum com Deivid. Nesse caso, Romero busca o fundo e Élber aparece preenchendo espaço pelo meio.

FASE DEFENSIVA

Cruzeiro mantinha um mesmo esquema em ambas as fases.

Na defesa, o Cruzeiro mantinha o mesmo formato (4-3-3). Basicamente, a linha de ataque se posicionava para promover o primeiro combate à transição. Mais atrás, o primeiro volante se colocava à frente da zaga quase como um terceiro defensor central, em alguns momentos do jogo. Já os meias-centrais circulam no seu âmbito e faixa de campo. Um sistema bem simples.

A grande função desse esquema defensivo também era protagonizado por Romero e Ariel. No futebol atual, é muito comum ver os extremos recompondo para exercer marcação pelos lados e “auxiliar” o lateral nas coberturas. No Cruzeiro, isso era função dos meias-centrais. Veja no flagrante abaixo. O Galo ataca pelo lado e quem aparece para ajudar Fabiano na marcação é Lucas Romero. No lado esquerdo, isso também se repetia com Sánchez a Ariel. Então, os três atacantes tinham menos “obrigação” de cumprir função tática e podiam, assim, ter mais liberdade para executar contra-ataques. Claro, em momentos onde o adversário afunilava o seu jogo exigindo a participação pelo meio dos volantes-centrais, os pontas recuavam para evitar a abertura de espaço pelos flancos. Contudo, essa ideia era própria para explorar seus potencias em contra golpes. E por isso, também, o posicionamento da primeira linha de três de marcação era tão próximo (imagem acima).

A defesa não foi um problema para Deivid: foram apenas 8 gols sofridos nos 14 jogos em que comandou a raposa.

TRANSIÇÃO

O meio-campo da Raposa é muito técnico. Isso facilitava muito o processo de transição de jogo. Henrique ficava posicionado para dar o “primeiro passe” e, em seguida, Ariel e/ou Lucas Romero recuavam para dar prosseguimento ao processo, recebendo de costas e aproveitando as suas ótimas qualidades de distribuição. Eventualmente, um dos pontas aparecia no setor para executar tal função, só que além de distribuir, também tentavam ingressar no campo adversário com bola dominada.

Ariel Cabral e Lucas Romero se revezavam na transição.

Nessa parte do jogo, podia-se diagnosticar um dos problemas do time. Na imagem abaixo, veja que Lucas Romero tem bola dominada e campo aberto para construir. Porém, há um grande espaço à frente sem presença de jogadores do Cruzeiro. Naquele momento, os extremos já estavam espetados e o atacante central estava posicionado na sua faixa. Embora sejam denominados meias centrais, Romero e Ariel ocupavam muito os lados do campo (direito e esquerdo, respectivamente) e raramente atuavam como um verdadeiro “meia-central”. A partir disso, o time perdia em questões de compactação e em retenção de bola, sendo uma equipe que sempre se obrigava a definir logo a jogada. Não é por acaso que a média de posse de bola do time com Deivid era de 52% - número baixo para um clube que conta com tantos jogadores técnicos no elenco. Um desperdício.

Em alguns jogos, Deivid chegou a sacar Henrique, alinhou Ariel e Romero e pôs mais um jogador na frente. O time ficou mais próximo e controlador. Quem sabe, uma insistência maior nesse modelo poderia ter dado mais fôlego ao ex-treinador cruzeirense.

Por vezes, faltava um meia mais fixo na parte central do time de Deivid. Robinho, recém contratado junto ao Palmeiras, pode ajudar o novo treinador a resolver isso.

DESTAQUE TÁTICO 

Lucas Romero é muito participativo durante o jogo (Foto: Doug Patrício).

Lucas Romero é o destaque tático do Cruzeiro. O jogador de 22 anos é muito bom tecnicamente e, como vocês viram, participa em várias partes do jogo sendo combativo, ativo na transição e com leitura mais que suficiente para ser útil nas ações ofensivas. O ex-Vélez Sarsfield foi um dos quatro estrangeiros contratados pelo Cruzeiro para a temporada e tem tudo para continuar sendo titular com o novo técnico.

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Edited by Douglas Menezes