20 de maio de 2016

Diego Aguirre e o sentimento de injustiça

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Diego Aguirre anunciou, na última quinta-feira (20), que pediu demissão da vaga de treinador do Atlético-MG. A decisão veio após a fatídica eliminação nas quartas de final de Libertadores frente ao São Paulo de Edgardo Bauza. Foi o segundo trabalho do técnico uruguaio no futebol brasileiro.

Diego Aguirre treinou  Internacional e Atlético-MG em 2015 e 2016, respectivamente (Getty images).


O primeiro, no Internacional, também teve o mesmo tempo de duração, praticamente (meio ano). O começo no colorado foi difícil. Desempenho ruim, resultados duvidosos e muitas críticas ao seus métodos (treino físico com bola, revezamento de jogadores e opção por atletas contestados no time titular). Mas tudo isso só foi no começo mesmo. Aguirre mostrou sua qualidade e fez o time estabelecer um padrão tático, que levou o Internacional ao título estadual de 2015 e a semifinal da Libertadores, sendo considerada a equipe que jogava o melhor futebol do país na época.

Somado a isso, o carisma e personalidade do treinador o fizeram cair nas graças da torcida. Diego era querido por grande parte dos torcedores vermelhos. Eis que chega o momento de decisão na temporada: enfrentamento com o Tigres pela já citada semifinal continental. Uma vitória na ida no Beira-rio deu confiança, mas na volta o tenebroso veio a acontecer: a virada mexicana veio dos pés (ou cabeça) do último artilheiro da Ligue 1 – o francês Gignac.

Acabava o sonho do "tri" para o time gaúcho, mas não acabava o amor por Aguirre. Amor que se traduzia em reconhecimento. E foi justamente esse reconhecimento que faltou a cúpula administrativa do Inter. A eliminação somada a uma inconstância no Brasileirão fez o presidente Vitório Píffero demitir o técnico charrua. Terminava assim a primeira jornada de Diego no elétrico futebol do Brasil.

Chegado 2016 e o Atlético-MG resolveu apostar nas ideias de Aguirre e deu para ele um elenco de luxo, com o “urso” Lucas Pratto, o categórico Rafael Carioca, o intenso Juan Cazares e o driblador Robinho, além de inúmeras outras peças úteis. Tudo isso fez o Galo ser considerado o principal time do país. Mais responsabilidade e cobrança sobre o uruguaio que, em contrapartida, estava mais ambientado ao nosso futebol.

Começou a temporada e a história se repetia: desconfiança e críticas sobre suas escolhas, como a opção por escalar o time com o trio formado por Leandro Donizete, Júnior Urso e Rafael Carioca ou por delegar a função de ponta-direita ao lateral Patric. Cobranças que eram um tanto amenizadas com os resultados positivos.

O Galo teve uma fase de grupos e oitavas de final de Libertadores coesas. No estadual, a obrigação também foi feita com a vaga na final garantida. E foi aí que a exigência brutal por sucesso imediato atingiu Diego novamente. A perda do caneco para o América-MG no Mineiro e a eliminação, em pleno Horto, para o tricolor paulista fizeram a pressão aumentar a níveis insuportáveis. Aguirre deixou o cargo de comandante do Atlético-MG com o histórico de 16 vitórias, 7 empates e 8 derrotas em 31 jogos.

Aguirre é mais uma vítima do imediatismo do futebol brasileiro. Costumamos olhar o cenário só sob a ótica do grande resultado. Métodos, conceitos, ideias e treinamentos sempre ficam em segundo plano em uma análise de trabalho de comissão técnica. É da cultura do nosso futebol. Para nós, o vencedor é o conjunto exemplar e o perdedor “não presta”. Esquecemos que no futebol só um vence. Nos falta a capacidade de conseguir estabelecer um olhar crítico sobre tudo isso. 

Alguns treinadores, chegam nos clubes e imediatamente melhoram desempenho, conseguem alguns resultados positivos e se sustentam nos seus respectivos cargos. São esses os sobreviventes na selva que vivemos. Os que não conseguem isso, acabam “fritados”. E é importante ressaltar uma coisa: quando faço essa crítica, não me refiro apenas aos “gestores de futebol”. Falo de todos os que trabalham no meio futebolístico (jornalistas, jogadores, federações, empresários). Falta à todos esse poder de enxergar a complexidade nas coisas. Nesse sentido, engatinhamos e nos falta modéstia para perceber que precisamos urgentemente de atualização.

Meu maior elogio à Diego Aguirre, além de reconhecer e entender suas ideias “frescas” sobre futebol, é em relação a sua autonomia. O uruguaio veio ao Brasil não só para se adaptar. Ele veio com a intenção de fazer os demais se adaptarem a ele também. Se via nele um homem que se agarrava as suas convicções e, mesmo não recebendo respaldo, investia nos seus conceitos até o fim. E isso batia de frente com sua humildade, que não deixava essa autonomia se transformar em arrogância.

Aguirre foi bravo e merecia mais tempo. Mostrou ter qualidade para receber a chance de desenvolver um trabalho contínuo. Inúmeros treinadores de todos os cantos do mundo já disseram que para um técnico estabelecer um projeto, ele precisa de, no mínimo, uma temporada. Em dois trabalhos no irregular futebol brasileiro que tem um calendário cheio e troca de jogadores constantes, Diego não recebeu um ano em uma única equipe para reproduzir e obter o máximo de seus conceitos. Estamos falhando com o charrua.

E será que ele voltará a treinar aqui no país? Eu não sei. No momento, acho que Aguirre merece procurar um lugar onde sua contribuição a esse esporte é entendida. No frenético futebol brasileiro, infelizmente, não podemos oferecer isso a esse qualificado treinador, por enquanto. Diego Aguirre deixa Minas Gerais e, consequentemente, deixa todo o apreciador do bom futebol com a consciência pesada. Com o sentimento de que fomos injustos.


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