26 de março de 2016

O retrato da inconstância

Compartilhe nas redes sociais

Como um time faz 30 minutos como os iniciais do primeiro tempo e é amplamente dominado na segunda etapa? Como Neymar consegue desequilibrar no primeiro tempo e no segundo parecer sempre mal posicionado e individualista? A resposta é simples. Falta coletividade! E um time passa a ganhar conjunto a partir do momento que tem conceitos de jogo bem estabelecidos e os coloca em prática durante todo o jogo. Coisas que o Brasil mais uma vez não mostrou ter no empate em 2x2 contra os uruguaios.
Crédito: Rafael Ribeiro/CBF

De um jogo que parecia com uma goleada bem encaminhada a uma impressão real de ter de comemorar a igualdade no placar ao final do cotejo, tamanha foram as chances criadas por Suarez e companhia. O resultado de fato ficou barato para o Brasil, que agora enfrenta o Paraguai em Assunção sem seu principal jogador. Promessa de mais 90 minutos de muito sofrimento!
 
Estrutura tática brasileira no início. Neymar como falso nove funcionou com uma equipe com princípios ofensivos bem executados. Na segunda etapa, caiu juntamente com o restante

O primeiro terço de jogo do Brasil pode ser considerado perfeito. Com Neymar muito bem como falso nove, o time brasileiro começou a mostrar a verticalidade que seria a tônica do seu jogo antes que os uruguaios encostassem o pé na bola. Passe em profundidade para Willian na direita, cruzamento na área e gol de Douglas Costa com apenas 47 segundos.
 
Início da jogada do primeiro gol. Willian e Douglas Costa bem abertos, dando amplitude e opção de passe em profundidade. Na imagem, Álvaro Pereira já fica pra trás a Coates abandona a área para fazer a cobertura
Na sequência da jogada, outro princípio, participação agressiva de Fernandinho e Renato Augusto entrando na área e criando opções de passe. Douglas Costa agora já está dentro da área pronto para finalizar e abrir o placar


O camisa 10 brasileiro mostrou que sabe muito bem atuar na função, mas como de praxe em qualquer time do mundo, precisa de um sistema ofensivo que funcione e não o faça refém da zaga adversária. Na primeira etapa a estratégia funcionou bem. Fernandinho, Renato Augusto e Douglas Costa se revezaram na função de dar profundidade ao ataque à medida que o jogador do Barcelona saía da referência e buscava com inteligência o espaço entre as linhas do Uruguai.

Neymar sai do meio das linhas do Uruguai e arrasta Victorino. Vejam o espaço que se abre nas costas do zagueiro uruguaio. Tanto Douglas Costa, quanto Fernandinho podem aproveitar o espaço. Reparem como o camisa 5 ''afunda'' na defesa uruguaia para ''espaçar'' última linha de defesa charrua.
Outro exemplo de Neymar trazendo Victorino para fora da linha de defesa do Uruguai. Na imagem, Fernandinho se projeta. Ex-jogador do Santos como falso nove pode funcionar muito bem, basta que movimentações como essas aconteçam.

Desta forma o Brasil criou algumas chances e poderia ter feito até mais que o 2 a 0 anotado por Renato Augusto em um lindo gol aos 25 minutos. O tento, aliás, demonstrou outra faceta da ‘’Seleção ideal ofensivamente’’ do início do jogo, troca de posições entre meias e atacantes, amplitude e paciência para trocar passes até encontrar o espaço certo.
Origem do gol de Renato Augusto. Vejam que o ex-jogador do Corinthians troca de posição com Willian. Neymar mais uma vez consegue espaço saindo da referência e deixando Fernandinho projetar-se. Filipe Luis também chega para dar opção e Douglas Costa dá amplitude pela esquerda. Renato se movimenta e recebe de Neymar por trás da defesa, confusa com tanta movimentação e opções.

Com a vantagem, porém, o time brasileiro se acomodou e perdeu o controle do jogo demonstrando o que de pior uma equipe pode ter no aspecto coletivo. Se não era perfeito, o sistema defensivo da Seleção pelo menos era agressivo e obrigava os uruguaios a forçarem o passe. Mas a volúpia na marcação se arrefeceu e aí faltou uma estrutura mais bem definida na fase defensiva.

Do gol marcado por Cavani no primeiro tempo, passando pelo empate anotado por Suarez e finalizando com as chances charruas perdidas na segunda etapa, o Brasil apresentou-se de forma desorganizada e amorfa defensivamente. Longos encaixes individuais, última linha sem coordenação e jogadores desequilibrados emocionalmente. A instabilidade talvez venha da ciência de uma coletividade inferior a do adversário. A certeza de que a história pode mudar de forma repentina.
Filipe Luis falha no primeiro gol do Uruguai. Mas não é uma falha  individual somente, mas sim de conceito defensivo. Ao invés de parar na linha de David Luiz e deixar Sanchez impedido, o camisa 6 acompanha o uruguaio sem a menor necessidade. Sabe porque? São os encaixes individuais. No Atleti o lateral não comete esse tipo de falha.

Veio o segundo tempo, o acerto tático da equipe de Oscar Tabarez, e o Brasil apático também na parte ofensiva. Lembram-se do Neymar a pleno vapor como falso nove no primeiro tempo? No segundo o capitão brasileiro caiu de rendimento com a falta da execução dos princípios postos em prática inicialmente. Sem uma coletividade forte, não há talento que sobreviva. Principalmente diante uma defesa que se organizou e repetiu o rendimento dos quatro jogos anteriores.

É claro que faltou a Neymar esse entendimento. Era hora de prender menos a bola, buscar menos o contato com a fechada defesa uruguaia e fazer a bola rodar com mais velocidade, mas faltaram as trocas, movimentações e inversões da primeira etapa. Os princípios foram por água abaixo e o jogo também. Dunga ainda tentou mudar a estrutura tática com alterações, mas já era tarde.
Uruguai no primeiro tempo: Tabarez errou ao escalar uma equipe com menos intensidade na marcação que o de costume, e Cebolla Rodriguez e Álvaro Pereira pela esquerda. A dupla foi o ponto fraco do sistema defensivo uruguaio, que deu muitos espaços.
Na segunda etapa um time mais parecido com o que atuou nos quatro jogos anteriores. Muita compactação e uma estrutura mais densa defensivamente. Cavani aberto pela esquerda e Sanchez variando entre a ponta e as costas dos volantes brasileiros.  Álvaro González reforçou o meio e protegeu o que estava exposto no primeiro tempo.

Do outro lado estava um Uruguai mais confortável. Após o empate ficou à vontade para fazer o jogo que sabe fazer. Se fechar, marcar com intensidade e sair com velocidade buscando o talento de seus atacantes. Mérito para Tabárez, que após uma escalação inicial equivocada, acertou a equipe com a entrada de Álvaro González, a formação do 4-1-4-1 sem a bola e a compactação entre as linhas.

Insinuante e criativo na primeira etapa, o Brasil virou uma equipe previsível e em caos defensivo no segundo tempo. E aí? Qual é a nossa filosofia de jogo? Qual é o futuro desse time? Nem o Dunga deve saber...

Deixe um comentário

Todos os comentários postados são de responsabilidade de seus autores. É necessário estar logado no facebook para comentar.

 

Bem-vindo ao Linha Alta. Site com conteúdo futebolístico.

© Linha Alta 2016

Edited by Douglas Menezes