23 de março de 2016

Destrinchamos o Uruguai: saiba os possíveis caminhos para o Brasil vencer

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‘’Eles gostam de catimba’’, ‘’praticam algo parecido com o futebol’’, ‘’são violentos’’, ‘’a velha raça uruguaia’’... Esqueça todas essas frases prontas e clichês, aqui no Linha Alta você saberá como vem atuando a seleção uruguaia e o que é preciso para o Brasil vencer o forte, mas desfalcado sistema defensivo do vice-líder da chave sul-americana das Eliminatórias para a Copa de 2018, na Rússia.

Mesmo sem Suarez, Uruguai fez oito gols em quatro partidas. Time reativo e extremamente eficiente nas finalizações - Foto: AUF


Não é exagero nenhum dizer que o Brasil teve muita sorte. O estilo de jogo da seleção uruguaia é pautado na reatividade. Se sente à vontade sem a posse de bola e para que isso funcione é preciso uma organização defensiva eficaz. Pois bem, cinco titulares e nomes importantes do sistema de defesa da Celeste estão fora. Maxi Pereira e Godin suspensos. Gimenez, Cáceres e Corujo lesionados. No caso do capitão Godin, também há uma lesão que lhe tira da partida contra o Peru, pela sexta rodada. A pergunta então é a seguinte: conseguirá o Uruguai manter a eficiência com que defende e está pautado o desenvolvimento de seu jogo?

A resposta exata nem mesmo o técnico Oscar Tabarez tem, mas quem acompanhou os quatro jogos dos uruguaios na competição sabem bem da qualidade na execução dos princípios. E aí entra um modelo de jogo que nos remete, numa análise superficial, a dizer as frases descritas no primeiro parágrafo do texto. O Uruguai é a maior prova que não existe receita de futebol para obter êxito. Faz o contrário do que as equipes mais badaladas do futebol mundial executam e consegue se sobressair perante os adversários. Impõe sua estratégia.

É claro que sem uma das melhores duplas de zaga do futebol mundial (Godin/Gimenez) o projeto de jogo dos comandados de Tabarez fica ameaçado. Ainda não se sabe quem jogará. O que parece certo é que Sebastian Coates, reserva imediato da dupla de zaga e que já mostrou bom rendimento nestas Eliminatórias, tem vaga garantida. Pela experiência, Fucile deve entrar em uma das laterais. Se jogar na esquerda, Varela, o jovem atleta do United, ganha chance na direita. Se atuar do outro lado, Gastón Silva deve ser o escolhido para a lateral esquerda. Mauricio Victorino é o provável companheiro de Coates no miolo de zaga.

No meio, a ausência de Corujo não deverá ser tão sentida. Álvaro Gonzalez retorna e tem muitas chances de ser o primeiro volante, com Arévalo Rios à sua direita e Lodeiro a esquerda. A tendência é mesmo o Uruguai no 4-1-4-1. A estrutura tática foi utilizada em duas partidas das eliminatórias e é mais provável pelo fato de Tabarez gostar de posicionar sua equipe de uma maneira que facilite os encaixes de perseguição curta que executa quando defende. Caso o Brasil entre no 4-1-4-1, Lodeiro deve ser adiantado, o que muda o desenho charrua para o 4-2-3-1.
Provável escalação uruguaia para enfrentar o Brasil na sexta-feira, em Recife


No ataque, o Uruguai tem o retorno do craque Luis Suarez, um dos melhores jogadores em atividade no Mundo. O camisa 9 estreará nas Eliminatórias, pois cumpria suspensão por ter dado uma mordida no italiano Chielini na Copa do Mundo de 2014. Garantia de mais qualidade nos rápidos contra-ataques e nas finalizações, além de um reforço no primeiro combate da fase defensiva. O fato de não ter sentido a ausência de tanto talento dá a exata noção da organização da Celeste

Fase Defensiva

A compactação e a agressividade com que disputam cada dividida e atacam o homem da bola adversário dão a tônica na hora de defender. Como citado acima, a marcação acontece em encaixes de curta perseguição. O que é isso? Cada homem encosta no oponente que cai em seu setor e o acompanha até determinado ponto. A partir do momento em que ele se desloca para uma parte do campo muito distante do setor original, há a troca de marcação com outro jogador do sistema defensivo.
Um flagra na vitória de 3x0 sobre o Chile. Encaixes de perseguição curta. Arévalo é o único que foge um pouco de seu setor, mas logo voltará
Ainda contra o Chile. Linhas bem ''baixas'' e compactas testam amplitude ofensiva chilena


A coordenação é praticamente perfeita e há pouquíssimos erros, principalmente pela liderança de jogadores como Godín, Álvaro Gonzalez, Arévalo Rios e Maxi Pereira, que possuem muita noção de marcação. O posicionamento costuma ser em bloco médio/baixo, com a pegada forte a partir da linha do meio-campo, mas quando percebe que está em um momento melhor na partida, o Uruguai também sabe adiantar suas linhas, mesmo que isso seja feito esporadicamente.
Este flagra mostra a compactação na vitória por 2x0 contra a Colômbia. Percebam como a última linha 'cola' na linha de meio, que por sua vez se aproxima de Stuani, homem mais avançado naquela partida. Pouco espaço para o adversário trabalhar
Outro exemplo de compactação, desta vez contra o Chile. Poucos metros entre Coates e Cavani, último e primeiro homem respectivamente


Nos quatro primeiros jogos das Eliminatórias, foi possível perceber equívocos apenas do lado esquerdo de defesa. No primeiro gol sofrido contra o Equador, única derrota até aqui, Cáceres saiu muito de sua zona para acompanhar Fidel Martinez, Cavani não conseguiu acompanhar Paredes, e Noboa aproveitou o espaço aberto para enfiar a bola. Já contra o Chile, Isla escapou algumas vezes aproveitando falha idêntica, mas a Celeste se recuperava sempre a tempo nas jogadas.
Erro citado acima contra o Equador: Cáceres fecha demais e abre espaço para a infiltração de Paredes, Cavani não consegue acompanhar e Noboa enfia linda bola para o lateral equatoriano. Na sequência da jogada, há o cruzamento para Caicedo marcar.


Antídoto Brasileiro 1

Dunga assinala a hipótese de escalar Luiz Gustavo e Fernandinho como volantes e Renato Augusto como meia central no 4-2-3-1 ou até mesmo no 4-1-4-1 adotado contra o Peru, mas com Fernandinho na vaga de Elias. Estratégia equivocada! O Brasil terá a bola na maior parte do tempo, precisará de um passe que saia dos volantes e rompa as rígidas linhas de marcação uruguaias. Luiz Gustavo e Fernandinho tem pouca capacidade para isso. A opção mais correta seria escalar Renato Augusto como volante. Ele sim possui essa característica, além de dinâmica para movimentar-se, infiltrar e servir como ‘’opção de retorno de passe’’.
Como deve ficar as disposições táticas de Brasil e Uruguai na próxima sexta-feira

Como deveria ser: Neymar entrelinhas e Renato Augusto armando mais de trás, sem infiltrar tanto


Neymar poderia ser escalado entre as linhas e usar todo o seu talento para abrir espaços, seja com a capacidade de tabela rápida, drible ou movimentação. Neste caso, Jonas ou Ricardo Oliveira atuariam como referência na frente, saindo muito pouco da região central do campo. Bem abertos no início da fase ofensiva, Douglas Costa pela esquerda e Willian pela direita, podem alternar entre a amplitude necessária para gerar opção de passe e a movimentação em diagonal, a mesma que iludiu Cáceres contra Chile e Equador. Qualidade e velocidade para isso eles têm.

Para completar, os laterais brasileiros precisam passar bastante e empurrar Sanchez e Cavani para bem longe da meta canarinho. É importante também ter muita paciência. Rodar a bola com passes rápidos e seguros, ter aproximação, para diminuir as chances de erros e consequentemente do perigoso contra-ataque uruguaio. Rifar a bola nem pensar, a defesa uruguaia é muito boa no jogo aéreo.

Transição Defensiva

É uma fase do jogo que praticamente inexiste na seleção uruguaia. Muito em função de desperdiçar bolas no último terço do campo. Como sai na grande maioria das vezes na base da ligação direta, não há tempo para que o time saia em bloco ao campo de ataque e se configure uma transição defensiva propriamente dita na perda da posse. Quando é desarmado ou erra passes, costuma iniciar a pressão com o homem mais próximo da bola, enquanto o restante da equipe se reposiciona em bloco médio/baixo. Dá pouquíssimos contra-ataques, até mesmo porque esteve muito pouco atrás no placar durante a competição. Com o placar empatado, não toma a iniciativa do jogo nem mesmo jogando em casa.

Antídoto Brasileiro 2

Mais uma vez ser agressivo assim que retomar a bola. Não há outra hipótese de vencer o Uruguai. Mesmo superior tecnicamente o time brasileiro precisará ser intenso e reagir à altura a abordagem de marcação adversária. Buscar um passe de segurança assim que retoma a bola e começar a construir calmamente as jogadas.

Transição Ofensiva

Resume-se em duas estratégias. Bola longa ou alta para o centroavante ou um dos extremos, que costuma ter boa estatura. Rolan atua bem por ali, mas o titular da função é Cavani. E condução de bola pelas laterais do campo, principalmente o lado direito. Como Maxi Pereira tem mais velocidade e controle de bola do que Cáceres, costuma levar a equipe à frente desta forma. O Uruguai ataca quase que exclusivamente em transição, passando pouco para a fase ofensiva. Isso acontece em virtude da verticalidade do jogo charrua e da velocidade com que é executado. Diante deste cenário costuma errar muitos passes.
Aqui um exemplo de jogada forte do Uruguai: Cavani recebe o lançamento longo e 'raspa' de cabeça para a projeção de Rolan, Sanchez e Álvaro Pereira. O ex-jogador do São Paulo acaba marcando de cabeça na sequência da jogada.


Antídoto Brasileiro 3

Aqui a ideia é não proporcionar essa transição da forma desejada pelo adversário. Quanto menos errar passes, menos riscos o Brasil correrá. Por isso a importância de ter um jogador com o passe mais qualificado e mais noção de criação na primeira linha de construção das jogadas

Fase Ofensiva

Costuma sair sempre de forma longa. Muslera ou um dos zagueiros buscam os homens mais fortes do jogo aéreo no ataque, que tentam ‘’raspar’’ ou escorar a bola para algum companheiro. É interessante notar que a equipe tem esse princípio bem claro na sua forma de jogar. Os jogadores mais próximos se agrupam para gerar superioridade e ganhar a chamada ‘’segunda bola’’, fato que acontece corriqueiramente e já possibilitou a marcação de dois gols nesta campanha. Há também a infiltração em diagonal de um jogador buscando as costas da defesa
Flagra da estratégia uruguaia. É falta na intermediária defensiva. Ao invés de sair jogando, Muslera manda equipe á frente e bate forte buscando os atacantes na frente.
Aqui o mecanismo citado acima. Cavani recebe pelo alto, mas Lodeiro e Sanchez se aproximam, Rolan busca as costas da zaga, Arévalo, Corujo e Maxi Pereira vão chegando também.


Caso a bola volte para o círculo central, Lodeiro é a principal arma. É o titular com maior capacidade de articulação das jogadas e é o responsável pelos passes rasteiros em profundidade ou os passes buscando o apoio dos laterais. O centroavante busca bastante os lados do campo e a troca de posições com os ‘’extremos’’.

Antídoto Brasileiro 4

Mais uma vez a intensidade em primeiro lugar. Desde o combate inicial, visando a impossibilidade de uma longa de qualidade, até a atenção máxima dos zagueiros, volantes e laterais para ganho da primeira ou da segunda bola. É aconselhável não marcar numa faixa tão ‘’alta’’ do campo. Em caso de insucesso na bola aérea, haverá espaço de sobra nas costas da defesa para as infiltrações em velocidade.

Bola Aérea

Sem o zagueiro Godín, artilheiro da equipe com três gols, o Uruguai sofre uma baixa importante neste tipo de jogada. É uma seleções com maior percentual de aproveitamento em bolas aéreas, tanto na defesa quanto no ataque. A média de altura e a força física ajudam, mas a concentração e a entrega são determinantes também. Não há muito segredo ou inovação. Na defesa marcam por zona, no ataque se agrupam na altura da marca do pênalti.

Interessante observar que o time uruguaio costuma não evitar os choques e empurrões antes das batidas. Provocam bastante os adversários para que haja uma desconcentração do oponente e possam se aproveitar disso.

Antídoto Brasileiro 5

Em primeiro lugar organização. Para bater os uruguaios nesta jogada e sofrer o menos possível, é preciso estratégias bem definidas e seguidas à risca na hora de defender e atacar nas bolas paradas. Ofensivamente algo que pode funcionar são as jogadas combinadas, escanteios curtos ou batidas para a entrada da área. E defensivamente não entrar na pilha adversária, além cumprir exatamente o que foi determinado no vestiário. Se for por zona, mista ou individual, a marcação tem que ser forte e atenta, caso contrário o Brasil sofrerá.

Destaque Tático

Carlos Sanchez


Campeão da Libertadores pelo River Plate no ano passado e atualmente vestindo a camisa do Monterrey do México, este meia de 30 anos é atualmente o jogador mais importante do ponto de vista tático. Seja qual for o esquema, atua aberto pelo lado direito e é muito perigoso, tanto nas infiltrações em diagonal, quanto nos cruzamentos para a finalização de um companheiro. É especialista também nas faltas laterais e escanteios. Já deu duas assistências desta maneira e iniciou a jogada do primeiro gol contra a Bolívia. Alia técnica, força e velocidade.


Rodrigo Coutinho - @RodrigoCout

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