19 de março de 2016

Cada '9' a sua maneira: um raio-x de Guerrero e Fred

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Dois dos maiores atacantes em atividade no futebol brasileiro protagonizam neste domingo mais um duelo particular. Flamengo e Fluminense se enfrentam num clássico histórico no Pacaembu e é inegável que os holofotes estarão voltados para Guerrero e Fred, donos das pesadas camisas 9 dos dois clubes. Discussões à parte, o Linha Alta traz pra você um detalhado levantamento do comportamento tático de cada um e como são úteis para suas equipes.
Crédito: Montagem em cima de fotos de Gilvan Souza/CRF e Nelson Perez/FFC

Será a segunda vez que eles duelarão no clássico mais charmoso do Brasil. Na primeira, ocorrida há um mês, melhor para o peruano, que viu o mais organizado Flamengo dominar o jogo e vencer por 2x1, com direito a um gol seu. Voltando de contusão, Fred, que tem boa média de gols contra o rival, treinou normalmente nesta semana e parece ter garantido sua escalação entre os 11 iniciais de Levir Culpi.

Apesar de atuarem na mesma posição e cumprirem basicamente a mesma função em campo, há diferenças claras entre a forma de atuar de Guerrero e de Fred. Enquanto o Tricolor é o clássico centroavante, ou seja, sai pouco da referência e busca quase sempre o segundo pau, o espaço entre zagueiro e o lateral, nos cruzamentos da área. O ‘’9’’ da Gávea pode ser considerado uma referência mais móvel. Busca muito o lado esquerdo do campo e promove algumas trocas de posição com seus companheiros. Nos cruzamentos busca se antecipar no primeiro pau. É a tendência de sempre buscar a bola.
Primeiro flagra da movimentação de Guerrero. Logo na estreia do Carioca, no gol marcado contra o Boavista, o peruano poderia entrar em diagonal (seta e espaço vermelho), mas preferiu abrir para a esquerda e buscar ângulo para bater de fora da área ou cruzar para um companheiro. Princípio de contra-ataque bem executado pelo time de Muricy
Na sequência da jogada, Éverton, Arão e Cirino 'atacam' o espaço deixado por Guerrero e puxam a cobertura para longe do peruano, que limpa para o meio e faz um lindo gol

Agora veremos Fred. Reparem que sua movimentação é mais curta e restrita ao centro do campo, sempre servindo como referência para o passe. Este é um caso clássico de 'um,dois' com o centroavante que sabe fazer o pivô. Ele se desgarra da marcação do Tigres e devolve a bola para Diego Souza chegar na cara do gol.
Neste lance, Fred marca contra o Bonsucesso. O '9' clássico busca na grande maioria das vezes o espaço entre o zagueiro e o lateral do lado oposto ao cruzamento. Ali, no segundo pau, terá mais chances de conseguir espaço. Neste exemplo, vemos que o lateral-direito adversário está fora da área, muito mal posicionado. Fred não perdoa.

Não se discute a qualidade técnica de ambos. Fred é um finalizador nato. Nunca se notabilizou pela velocidade e agora, já entrando na reta final da carreira, vê limitada sua capacidade de movimentação, mas compensa com muita inteligência, personalidade, técnica e força física no combate com os zagueiros. Muitos lembrarão o apelido de ‘’cone’’ dado a ele no Mundial de 2014, mas é preciso levar em consideração o quanto um centroavante depende do bom funcionamento coletivo para poder render, algo que definitivamente não ocorreu no time comandado por Felipão.

Já Guerrero, em comparação a Fred, sempre foi um jogador mais leve e menos goleador. Na Alemanha chegou a atuar na linha de meias em algumas partidas quando vestiu as camisas de Bayern Munique e Hamburgo. Tem mais velocidade e dinâmica para ajudar na marcação, além de ser eficiente no primeiro combate em uma marcação mais ‘’alta’’. Muitos torcedores rubro-negros, em parte iludidos pelas análises errôneas da grande mídia esportiva, cobram do jogador uma média de gols que nunca foi realidade em sua carreira. O peruano só teve média alta de gols jogando no Bayern Munique B, entre 2003 e 2005.
No primeiro gol da goleada contra a Portuguesa, um exemplo claro da troca de posições citada a partir da movimentação de Guerrero. Ele sai da área, puxa a atenção dos zagueiros e Willian Arão infiltra (espaço vermelho) para marcar de cabeça após lindo passe de Sheik
Já este lance retrata o princípio da jogada que origina o segundo gol do Flamengo contra o Atlético/MG pela Primeira Liga. Guerreiro estava aberto na esquerda e parte em diagonal após passe de peito de Sheik. Reparem como a dupla de zaga do Galo se expõe e marca por encaixe de longa perseguição os atacantes do Flamengo

Veremos novamente Fred participar da construção de um gol que ele mesmo marcará, mas sem deixar muito sua área de atuação no campo. O atacante tricolor novamente faz 'um, dois' e o meia abre a jogada do lado esquerdo para a infiltração de Wellington Silva.
Esta é a sequência da jogada. Fred gira o corpo e parte para finalizar novamente no segundo pau. Todos os gols dele no Campeonato Carioca foram marcados dentro da área.


As características descritas ficam muito claras quando analisamos os percentuais de ambos, mapas de calor, e os seguintes flagras dispostos acima.  A base de dados é do site Footstats e se referem somente ao Campeonato Carioca de 2016.
Comparação entre Guerrero e Fred. Números do Campeonato Carioca. Fonte: Footsats
Fred tem média de gols e percentual de finalizações certas superiores aos números de Guerrero. Prova que é um atacante com faro de gol mais apurado, tem mais técnica para finalizar e consegue se posicionar de modo com que tenha mais possibilidades de marcar. O ‘’9 ‘’tricolor mostra que também precisa de menos chances para balançar as redes inimigas. Como não participa tanto da transição e da fase defensiva, comete menos faltas, leva menos cartões e desperdiça menos a bola, já que costuma recebê-la e definir logo.

O centroavante rubro-negro, por sua vez, mostra em números que participa mais da construção das jogadas, como já citado, uma referência móvel na frente. Como se desgasta mais e nem sempre toca na bola somente para definir os lances, tem percentual inferior de finalizações certas e demora mais tempo para marcar. Em compensação, tem mais cruzamentos, lançamentos e percentual superior de acerto de passes. Já deu também uma assistência para gol e fez quatro desarmes. Como é parte atuante na transição defensiva, leva mais cartões e faz mais faltas. Outro traço de seu rendimento perante a Fred é o número maior de vezes que fica em impedimento. O goleador das Laranjeiras é mais habituado à movimentação da última linha adversária.
Este é o mapa de calor de Guerrero no jogo contra o Flu pela primeira fase do Campeonato Carioca. Muita movimentação e recomposição pelo lado esquerdo.


Agora percebam a diferença do mapa de calor de Fred no mesmo jogo. Predominância na área central do campo. O centroavante tricolor pouco sai para os lados do campo.


Como em quase tudo no futebol, não há verdade absoluta na composição técnica e tática de um centroavante. Cabe à equipe usar as características disponíveis da melhor maneira possível. O mais difícil a dupla Fla-Flu já possui, dois grandes jogadores no comando do ataque. E neste domingo, quem se sairá melhor?


Rodrigo Coutinho - @RodrigoCout

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