20 de setembro de 2019

Uma convocação coerente de Tite

Sempre haverão discordâncias em relação aos nomes convocados para a Seleção Brasileira. É um debate que deveria ser tombado como patrimônio histórico das conversas de bar. Porém, existem listas muito menos duvidosas do que outras. É o caso da anunciada hoje (20), para os amistosos contra Senegal e Nigéria.

FOTO: PEDRO MARTINS/MOWA PRESS
Quantos aos desfalques que os clubes brasileiros sofrerão, já adianto que não dá pra reclamar muito enquanto nossas instituições continuarem coniventes com tudo que a CBF faz. Se não houver união em prol das mudanças necessárias, não existe base nenhuma pra reclamações. A adaptação do calendário passa pelos clubes brigarem por isso.

Vamos falar um pouco sobre cada uma das peças chamadas, posição por posição:

GOLEIROS: Sem Alisson, lesionado, Ederson é o titular absoluto. Embora ainda não seja unanimidade no Brasil, provavelmente por não ter feito carreira em nenhum clube grande daqui, é um dos melhores goleiros do mundo. Weverton é um goleiro sólido e faz boa temporada. Já Santos, do Athlético, considero o único equívoco claro da lista de Tite. Tem sido importante no Athlético, mas vejo distante do nível necessário pra jogar pela Seleção. Ademais, vem como terceiro goleiro, então muito provavelmente não jogará. 

LATERAIS DIREITOS: Daniel Alves e Danilo foram chamados para a posição mais carente de opções na nossa Seleção. Daniel voltou ao Brasil jogando como meio-campista, mas é um líder e ainda importante para a Seleção. Danilo também entra na lista de jogadores sólidos, mas nada espetaculares. Inicia a temporada como titular na Juventus. 

ZAGUEIROS: Thiago Silva continua como uma referência mundial na posição. Zagueiro absurdamente técnico, embora a idade esteja chegando. Éder Militão, recém-chegado no Real Madrid, é uma opção versátil e com muito potencial para crescer, assim como Rodrigo Caio de grande temporada no Flamengo. Quem fecha a lista dos zagueiros é Marquinhos, um dos melhores jogadores do PSG na última temporada, também bastante versátil (muitas vezes atuando como primeiro volante na França) e chegando ao seu auge. Hoje, nosso melhor defensor. 

LATERAIS ESQUERDOS: Em uma posição cheia de boas opções, Tite optou pela regularidade de Alex Sandro, um dos grandes jogadores da posição. Seu estilo de jogo, porém, não é o mais indicado para o modelo de jogo da Seleção, onde Renan Lodi, do Atléti, ganha muito espaço. Um jogador de presença ofensiva muito grande e extremo potencial. Chegou como titular e mostrando personalidade em Madrid. 

MEIO-CAMPISTAS: Casemiro é solidez, importantíssimo na Seleção, embora a temporada ruim no Real Madrid. Fabinho é outro volante defensivo dos mais destacados da Europa, cada vez mais adaptado ao equipazo do Liverpool de Klopp. Arthur Melo é presença mais do que esperada na lista, um dos jogadores mais promissores da geração e já importantíssimo na Seleção e no Barcelona. Um autêntico craque, assim como Matheus Henrique, que é chamado pela primeira vez. Dos melhores volantes brasileiros na temporada e mostrando qualidades que o próprio Arthur não tinha no Grêmio. A reclamar é da ausência de Bruno Guimarães, um dos volantes mais completos que o futebol brasileiro formou nos últimos anos. É um cara fisicamente muito potente (diferente de Arthur) e tecnicamente muito acima da média também. Foi pra Seleção Olímpica, mas deveria estar nessa. Provavelmente no lugar de Matheus Henrique, que também merecia muito a convocação, mas não tanto quanto Bruno. Além do quarteto já citado, Lucas Paquetá (popularmente conhecido como Paquetop) também foi chamado novamente. Variando banco e titularidade no ainda bagunçado Milan, o Paquetá precisa ganhar mais minutos na Seleção ou, por enquanto, deixar de ser chamado. 

PONTAS: Neymar é Neymar, independente do que acontece fora de campo continua sendo genial quando atua. É um dos três melhores jogadores do mundo e não tem como abrir mão disso. Porém, de quem daria pra abrir mão é de Phillipe Coutinho, agora no Bayern, que há um bom tempo não rende muito bem nos clubes e na Seleção. Continua sendo chamado porque já fora importantíssimo, mas acho que deveria ficar um tempo fora. Everton Cebolinha foi nosso grande trunfo ofensivo durante a Copa América, também sendo o artilheiro da competição. Segue sendo o jogador mais diferente do futebol brasileiro. Só não está na Europa ainda porque o Grêmio conseguiu segurar. 
O último entre os pontas é Richarlison, do Everton. Um jogador fisicamente exuberante, tem força, velocidade e agilidade e que tecnicamente está em evolução. Já consegue causar grande impacto na Premier League, uma das ligas mais difíceis do mundo. Por enquanto, presença certa em todas as listas.

ATACANTES: Roberto ''Bobby'' Firmino é um jogadorzaço. Qualquer treinador gostaria de contar com ele, jogador inteligentíssimo e muito talentoso. Gabriel Jesus é um jogador que sofre pela sua participação ruim na Copa-2018, mas é um ótimo atacante também, tanto é que o Pep Guardiola adora ele. Será importantíssimo pro futuro da Seleção. E seu xará Gabriel Barbosa vem em um momento absurdo no Flamengo. É o jogador com mais gols no futebol brasileiro, está em um nível de confiança muito alto e todos sabemos o quão talentoso é. Merece muito a oportunidade.

Em geral, como dito no início, uma lista bem coerente. O jogador que realmente faz falta, ao meu ver, é Bruno Guimarães. Seria indispensável pra mim. Mas o Matheus Henrique também merece muito uma oportunidade pela temporada simplesmente absurda que faz no Grêmio. Ah, reclamações pela CBF não fazer um calendário com pausas em Datas FIFA no guichê ao lado, por favor. 

Por Nicolas Müller - @_nicolasmuller

12 de setembro de 2019

Os destaques da campanha gremista no Brasileirão de Aspirantes

Com uma das categorias de base mais prolíferas do futebol brasileiro, o Grêmio é, hoje, um exemplo de utilização do Campeonato Brasileiro de Aspirantes. Tendo um plantel sub-23 mesmo antes da criação do campeonato, o Tricolor Gaúcho está muito a frente da maioria dos clubes brasileiros no que tange a transição dos jogadores formados na base ao profissional, como também podemos facilmente dizer que a transição base-profissional (ou base-transição-profissional) é uma das mais competentes do Brasil. Portanto, sua presença na final do campeonato, contra o Inter, não é nada surpreendente.

Ferreira, o artilheiro do time. (FOTO: Rodrigo Fatturi/Grêmio FBPA)
Assim como as categorias inferiores, o time de transição também aponta para a reprodução do modelo de jogo do grupo principal, a fim de já adaptar os jogadores ao estilo de jogo e às funções do profissional. Existem variações de nível de execução, algumas mudanças de acordo com características dos jogadores disponíveis, mas a grosso modo, a forma de jogar do Grêmio é facilmente detectável. É um time que gosta de jogar futebol, valoriza a posse e o jogo associativo com passes curtos, demonstra um futebol ofensivo e extremamente coletivo. O que o Grupo de Transição (e o departamento de formação em geral) tenta reproduzir. 

O CULTO DOS VOLANTES CRIATIVOS 

No que tange às características dos jogadores, também há a preferência por algumas em detrimento de outras. Existe praticamente uma cultura dos volantes gremistas nos últimos anos, tudo baseado em Maicon e sua forma de jogar. O modelo de jogo gremista exige meio-campistas com capacidade de criação, bom passe, qualidade técnica e intensidade. Se formos analisar os volantes mais utilizados no plantel da Transição, todos os meio-campistas se encaixam nesse ''filtro''. Claro que são jogadores diferentes, alguns com mais facilidade para criar chances de gol, outros com melhor capacidade de distribuição e etc. Mas o grande requisito para a posição é saber jogar futebol. 

ZAGUEIROS DE CABEÇA ERGUIDA

É cada vez mais imprescindível no futebol moderno os zagueiros conseguirem fazer uma boa saída de bola. Seja em situações de puxar a marcação adiantada adversária e conseguir dar prosseguimento às jogadas ou mesmo para entregar a bola em boas condições para os volantes e laterais. Times que trabalham muito com a bola, caso do Grêmio, precisam, por óbvio, de zagueiros capazes de dar passes longos ou curtos com boa eficiência. Pedro Geromel é a maior das inspirações nesse caso. Além de um zagueiro dominante, é um jogador com muitos recursos técnicos para ajudar o time a construir jogadas. Em menor escala, Kannemann também consegue se virar pelo lado esquerdo. Hoje é mais do que comum ver zagueiros da base gremista saindo jogando por baixo. Erros acontecem, ainda mais com jogadores tão jovens, mas são essenciais para o crescimento desses atletas e o incentivo e o encorajamento desde cedo são vitais para se tornarem jogadores mais completos no futuro. Ruan e Emanuel, os titulares mais recorrentes, são exemplos disso. São dois zagueiros que buscam ao máximo evitar o balão sem critério e possuem uma bola saída de bola curta, já que ambos foram (e estão sendo) moldados para esse tipo de situação. 

O MESMO ESQUEMA - 4-2-3-1 

As bases táticas do Grêmio Sub-23 são bem semelhantes às do elenco principal, por óbvio. Busca por jogo associativo, volantes criativos, bastante uso do pivô e a mesma plataforma tática, o 4-2-3-1. Zagueiros com bom passe curto (embora lhes falte capacidade de marcação), laterais equilibrados, volantes gerindo a circulação da bola e aparecendo na frente, meias se movimentando e um centroavante como referência para o uso do pivô, que se tornou cada vez mais ativo no plantel principal desde a contratação de Lucas Barrios, passando por Jael e, agora, com André. 

(FOTO: RODRIGO FATTURI/GREMIO FBPA)
Algumas movimentações também se assemelham bastante, como a busca pelo centro de Jhonata Robert, o ponta-direita, bem parecido com o movimento de Alisson no profissional. Robert é um '10' jogando de ponta, um jogador mais criativo e menos incisivo que Ferreira, o ponta-esquerda, que desenvolveu muito sua capacidade de finalização e possivelmente acabará o Brasileirão de Aspirantes como artilheiro. Mais um ponta-esquerda de pé invertido, ou seja, busca o corte pra dentro pra finalização com a perna boa. Mesmo caso de Cebolinha e Pepê.

POSIÇÃO POR POSIÇÃO

Um resumo com minha opinião pessoal e algumas informações básicas sobre os jogadores mais utilizados, posição por posição. Em aspas a idade do jogador. E o time-base, até o primeiro jogo da semifinal, é: Brenno (Phelipe); Felipe, Ruan, Emanuel, Jefferson; Jhonata Varela, Matheus Frizzo; Jhonata Robert, Isaque, Ferreira; Joanderson.

GOLEIROS: O Grêmio tem feito um rodízio na posição. Quem mais atuou foi Brenno (20), que conta com 7 jogos e 6 gols sofridos. É um goleiro seguro e bem alto (1,88cm), já fez dois jogos com o elenco principal na temporada. O segundo com mais atuações é Phelipe Megiolaro (20), pessoalmente acho o mais talentoso goleiro que formamos desde a dupla Cássio e Marcelo Grohe. Phelipe fez 5 jogos e sofreu 4 gols. É um goleiro muito ágil, com grande reflexo e tem o diferencial do jogo com os pés. Tem menor envergadura do que o Brenno, mas compensa com agilidade. Por último, Vinicius Machado (19), o mais jovem dos três, tem a melhor média de gols sofridos, com um só tento concedido em 4 jogos. Na hierarquia, é o terceiro goleiro e depende do sucesso de Brenno e Phelipe no profissional pra receber uma sequência mais longa em 2020. 

LATERAIS DIREITOS: A lateral direita é atualmente de Felipe Albuquerque (19), um dos jogadores mais regulares e equilibrados desse elenco. Bom defensor, boa participação na criação e nas investidas ao espaço quando surge. Não é um especialista em nada, mas possui boa competência na maior parte das suas ações em campo. É um dos nomes a se observar para a próxima temporada caso siga evoluindo. O outro nome da posição é Ericson (20), lateral mais defensivo, que também pode atuar como zagueiro. 

ZAGUEIROS: Ruan Tressoldi (20) é o titular pela direita, enquanto Emanuel (19) figura pela esquerda. Como dito no início do texto, não há mais espaço para zagueiros sem boa saída de bola no Grêmio. O modelo de jogo requer e a base precisa fomentar esse aspecto desde cedo, então é quase um requisito para estar aqui. Ruan, além da boa saída de bola, é fisicamente muito potente, com seus 1,87m e uma boa velocidade. Ainda peca na marcação, nas divididas e no posicionamento. Sua bola aérea ofensiva é outra grande qualidade. Os outros zagueiros do elenco são Denilson (24) e Matias Antonini (21).

LATERAIS ESQUERDOS: Com o empréstimo de Guilherme Guedes para a Ponte Preta, Jefferson Vinicius (19) assumiu a titularidade e tem demonstrado boas características. O potiguar chegou como zagueiro para o elenco júnior, mas conseguiu se consolidar como lateral esquerdo e assumir a posição. É um jogador com boa capacidade defensiva e vem tendo boas atuações ofensivas também. Jogador, assim como Felipe, bastante equilibrado. Diferentemente de Kazu (19), que é um lateral muito mais ofensivo que defensivo e que tem sofrido com problemas físicos nessa temporada. Um dos melhores jogadores do Grêmio na Copa São Paulo no início do ano. 

O capitão Matheus Frizzo em ação contra o Vitória em Salvador (FOTO: LETÍCIA MARTINS/ECV)
VOLANTES: Capitão e uma das lideranças técnicas, Matheus Frizzo (21) é o jogador gremista com mais minutos em campo na campanha do Brasileirão de Aspirantes. Chegou do São Paulo como meia armador e foi convertido a segundo volante, função onde conseguiu dar um salto imenso de rendimento. Sua capacidade de passe, de criação e liderança o credenciam como um dos melhores e mais regulares jogadores dessa equipe. Jhonata Varela (19), outro jogador trazido do ABC-RN, é geralmente o parceiro de Frizzo na dupla de volantes. Também destaque na Copa SP, Varela é o volante mais posicionado da equipe. Jogador de bom passe curto, boa marcação e intensidade, além de versatilidade, podendo atuar de lateral também. Além da dupla titular, ainda temos os promissores Lucas Araújo (20) e Victor Bobsin (19). Dois jogadores de bom passe e qualidade técnica, mas ainda crus em nível de competitividade. Bobsin é selecionável, há muito hype em cima dele desde o Sul-Americano Sub-17 de 2017, mas pouco evoluiu desde lá por problemas físicos. 

Léo Chú, o flecha negra. (FOTO: RODRIGO FATTURI/GREMIO FBPA)
PONTAS: Um dos mais talentosos da equipe, Jhonata Robert (19) é um dos estandartes da bela campanha gremista. O habilidoso meia tomou conta da ponta direita com muita qualidade no drible, na finalização e com inteligência pra se mexer e dar opção de passe. É o famoso jogador ENSABOADO, muito difícil de marcar. Pelo talento e desempenho que vem demonstrando, deve ganhar alguns minutos no profissional em 2020. Seu reserva é Guilherme Dantas (21), ex-Juventus da Mooca, cujas características são parecidas. Com pouco tempo em campo, conseguiu dois gols, tendo uma média de 1 gol a cada 57 minutos. Na esquerda, o titular é Aldemir Ferreira (21), também conhecido com o codinome de FERREIRINHA. Ótimo driblador, ele evoluiu muito, mas muito na finalização nos últimos mses, se tornou o jogador mais confiante do elenco e não para de marcar gols (é o artilheiro do certame com 11 gols). Tem velocidade, drible curto e consciência tática, muito importante para os pontas nesse modelo de jogo. Pelo nível de desempenho, talvez já o vejamos em campo pelo profissional nessa temporada. É um cara que vai pra dentro em todas. E consegue ganhar vantagem muitas vezes. Nível de confiança abismal. A posição ainda tem o porto-alegrense Léo Chú (19), um dos meus jogadores favoritos desse elenco. É um ponta muito rápido e com bom drible, mas também é muito criativo. Não está no ponto de desenvolvimento do Ferreira, mas tem imenso potencial. Mateusinho (20) é o quinto elemento da posição. Chegou do Guarani no início do ano, mas ainda não teve tanto espaço para demonstrar seu futebol. 

MEIAS E ATACANTES: Isaque (22) é o meia central da equipe. Versátil e inteligente, é um jogador que se movimenta bastante para botar os pontas e o centroavante no jogo. Já tem alguns jogos de Gauchão na conta e foi titular em todos os jogos do time no campeonato. Também é um jogador que faz várias coisas e não é especialista em nenhuma, mas é, no geral, bom jogador. Renovou seu contrato até o fim de 2022 nessa semana. Titularíssimo desse time. Por último, chegamos aos 9's. Da Silva (20), hoje no elenco principal, fez 7 jogos no Aspirantes e marcou 4 gols. É um jogador que vocês já conhecem. O outro centroavante do elenco é o Joanderson (23), que vem sendo o titular da equipe. Importante no pivô, mas muito ineficaz na maioria das ações. Tecnicamente é o ponto fraco do time, embora tenha liderança e experiência. Felipe Tontini (24) é seu reserva, mas com características muito diferentes, muito mais falso nove do que referência. Parou de desenvolver-se muito cedo e ficou pra trás. Por último, Raphael Stard (20), outro meia da geração de 1998 de Jean Pyerre e Patrick, tem boa capacidade técnica, mas fisicamente muito abaixo pra jogar de meia central no 4-2-3-1. Foi testado como segundo volante também. 

Não vou adentrar-me em jogadores com menos de uma partida jogadas ou que desceram do profissional pra jogar o segundo jogo do duelo contra o Vitória pela semifinal. Guilherme Azevedo, Darlan Mendes, Rodrigues, Patrick (jogou só o primeiro jogo do campeonato) e Da Silva são conhecidos já, além do Gui Guedes que foi para a Ponte por empréstimo e todo mundo sabe (ou deveria saber) que é top. 

(FOTO: RODRIGO FATTURI/GREMIO FBPA)
TREINADOR: Thiago Gomes (35) é ótimo. Jovem, moderno e casa perfeitamente com o objetivo do clube nesse estágio da formação do atleta. Seu Grêmio consegue, na medida do possível, reproduzir o Grêmio do Renato, assim como ele consegue chegar nas individualidades e contribuir no desenvolvimento de cada jogador. O caso principal é o Ferreira, que evoluiu absurdamente nas suas mãos. Aliás, suas entrevistas são muito claras, recomendo a pesquisa.  

Alguns jogadores se destacaram muito na campanha, caso de Ferreira, Frizzo e Jhonata Robert, outros possuem grande potencial pro futuro, caso de Victor Bobsin, Lucas Araújo e Léo Chú. A final do campeonato se aproxima e é bom ter em mente sempre que a grande vitória mesmo é conseguir entregar bons jogadores aos profissionais. E isso, ao que parece, deve ocorrer nos próximos meses ou anos. Perdendo ou ganhando, o objetivo principal da base, de modo geral, sempre será formar jogadores e cidadãos. E o Grêmio tem feito, graças a um projeto detalhado e muito bem executado, com grande sucesso. 

Por Nicolas Müller - @_nicolasmuller 

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2 de setembro de 2019

O fico de Everton e o equilíbrio financeiro do Grêmio

Numa eterna luta para manter as contas em dia, o Fluminense acabou de vender o centroavante Pedro à Fiorentina, da Itália. Fica com mais ou menos 8 milhões de euros e um percentual numa eventual próxima negociação do jogador. O clube carioca perde seu grande jogador para o restante da temporada e nem mesmo poderá usar o dinheiro recebido para se reforçar. Em crise financeira, o Flu foi obrigado a aceitar uma proposta longe do ideal, ficando refém de sua própria incompetência administrativa. 

Everton em ação contra o São Paulo. (FOTO: Léo Pinheiro/Grêmio FBPA)
De modo geral, um dos grandes debates acerca do nível baixo do futebol brasileiro é em relação ao nosso potencial financeiro pra manter grandes nomes aqui. Nossos clubes vivem de migalhas, de vender grandes jogadores pra conseguir pagar uma folha salarial de veteranos caros. É um ciclo, na maioria dos clubes. Mas alguns conseguiram fugir dessa realidade, embora ainda seja a tendência a venda dos melhores jogadores para a Europa ou Oriente Médio. 

O Grêmio é uma dessas exceções. Romildo Bolzan Jr. conseguiu reverter o quadro apocalíptico de 2015 e hoje o clube gaúcho é um exemplo de equilíbrio financeiro e gestão no país. Deixou de vender jogadores nesse período? Nunca, mas foi pouco a pouco conseguindo vender melhor e segurar mais os jogadores provenientes das categorias de base. Com a diminuição das dívidas mais urgentes, o clube é um dos poucos que pode se dar ao luxo de realmente estudar situações que envolvam saídas de jogadores. Outrora grande destaque do time, Luan ficou. Everton Cebolinha, o grande jogador do futebol brasileiro na atualidade, segue o mesmo rumo com o iminente fim de janela europeia. 

O projeto gremista é sólido o suficiente pra poder se dar ao luxo de recusar mais de 40 milhões de euros por um jogador, caso da oferta chinesa recusada por Everton. Não há desespero, o clube não precisa de uma venda ao fim da janela pra conseguir se manter até o final do ano. É o famigerado planejamento. Construiu sua situação atual tendo que sacrificar competitividade no primeiro ano da gestão, mas que certamente foi a base para os anos dourados que o clube vive. 

O fico do Everton é muito representativo. Além da questão financeira, que é de suma importância, há também o fator esportivo: o Grêmio é, hoje, um clube sólido, regular e está ano após ano disputando títulos, que é um fator essencial para a manutenção de jogadores. No início do ano, vendeu o meia-atacante Tetê, que jamais havia jogado profissionalmente, e já chegou ao valor estimado em transferências de jogadores pra temporada. Ou seja, o clube pode OPTAR por vender outros jogadores ou não, mas simultaneamente cria um contexto onde jogadores querem ficar e buscar títulos. Romildo Bolzan resgatou algo que o Grêmio pouco viu nas últimas duas décadas: liberdade e saúde financeira. 

''Ah, mas vai vender como se estão pedindo um valor maior do que o jogador vale?''. A pedida do Grêmio realmente é incompatível com o valor de mercado do jogador, mas aí é que está o ponto: quem tem interesse do contar com o jogador que negocie, que busque recursos para tirá-lo do Grêmio. Por parte do Tricolor, não há a menor necessidade de negociar o jogador nesse momento. Ou seja, pode barganhar o máximo possível e, em alguns casos, como esse, seguir com o jogador no clube. 

Claro que a tendência é que o Everton seja vendido em uma das duas próximas janelas, ainda é a realidade dos clubes brasileiros, mas conseguir manter esse jogador, com o destaque até internacional que já possui, é um feito e tanto da gestão gremista. Um processo de quatro anos que colhe frutos hoje em dia e seguirá colhendo. 

Por Nicolas Müller - @_nicolasmuller 




30 de julho de 2019

O coerente mercado do PSG

Com o Fair Play Financeiro na cola, o Paris Saint-Germain não pôde entrar com tanto vigor no mercado nessa janela, até pelas contratações exorbitantes de Neymar e Mbappé nos últimos anos. A questão é que, sem tanta badalação, o clube parisiense faz um mercado bastante coerente com suas debilidades, muito diferente do que nos acostumamos a ver na capital francesa desde a chegada do sheik.

(FOTO: REPRODUÇÃO/PSG)
Recém anunciado, Idrissa Gana Gueye se junta a Ander Herrera, Pablo Sarabia, Abdou Diallo e os jovens Marcin Bulka e Mitchel Bakker, que não devem ser aproveitados de imediato. Em suma, Tuchel trouxe três meio-campistas prontos para tentar sanar as carências do setor mais débil da equipe há várias temporadas, além de um defensor que promete muito futuro.

Ainda viúvo da aposentadoria do Thiago Motta, o PSG sofre para encontrar um primeiro volante que lhe dê garantias de rendimento. No último mercado de inverno trouxe o argentino Leandro Paredes numa medida emergencial, mas o jogador não deu uma grande resposta de imediato. Com bom desempenho na Copa América, é esperado que Paredes comece a crescer na mão de Thomas Tüchel e se firme de vez no time. Porém, Gana Gueye (29), com custo estimado em 32 milhões de euros, chega pra ser uma boa opção pro setor, com um perfil muito diferente do argentino, o senegalês agrega muito na parte defensiva, é um grande recuperador de bolas e tem agilidade pra cobrir muito campo. As comparações com N'Golo Kanté são as mais justas.

Ander Herrera (29) não foi o que se esperava no Man Utd, mas com certeza é um jogador interessante para se ter no elenco. Jogador de bom passe e visão de jogo, o basco chegou praticamente sem custos ao PSG, já que seu contrato com os Red Devils teve um fim. Encaixa muito bem no estilo de jogo do treinador alemão, que gosta de pressão na bola, movimentação e passes curtos. Aliás, encaixa tanto no 4-3-3 das últimas temporadas quanto no 4-4-2 testado na pré-temporada.

Um dos melhores jogadores da última temporada, Pablo Sarabia (27) deixa o Sevilla pra se juntar ao PSG num momento mágico de sua carreira. Jogador criativo e versátil, Sarabia pode jogar tanto como interior, quanto como ponta-direita, dependendo do esquema utilizado. Por apenas 18 milhões de euros (valor da multa rescisória), sua contratação por parte do PSG é, com absoluta certeza, uma das melhores da janela inteira. Pela temporada que fez e pelo mercado infladíssimo na Europa, esse valor por ele é o famigerado trocado. Tende a ser uma grande cartada no custo-benefício.

Abdou Diallo (23) saiu bem jovem do Monaco, estava na equipe campeã francesa há três temporadas. Na Alemanha, jogou muito bem por Mainz e Dortmund, o que fez o PSG trazê-lo de volta à França. Jogador forte, com velocidade, versatilidade e muito teto para crescer, Diallo chega para ser um backup inteligentíssimo para Marquinhos e Thiago Silva, já que Thilo Kehrer foi uma decepção e Presnel Kimpembe é muito irregular. Assim como Gueye, custou cerca de 32 milhões de euros.

Claro que nem tudo são flores em Paris. Para alavancar fundos e se adequar ao FPF, alguns jogadores jovens e com potencial tiveram que ser vendidos. Moussa Diaby, um dos jovens que mais jogaram na última temporada, foi vendido ao Bayer Leverkusen. A Alemanha também foi destino de Christopher Nkunku, que vai jogar no RB Leipzig na temporada 2019/2020. Filho da lenda George, Timothy Weah defenderá o Lille, que deve perder Nicolas Pépé e Rafael Leão nessa janela. E ainda existe a possibilidade de Stanley Nsoki rumar ao futebol inglês, provavelmente para o Newcastle.

O mundo anda tão maluco que, apesar das vendas, o Paris Saint-Germain contratou jogadores que realmente fazem sentido no elenco, atacou suas maiores carências e gastou muito menos do que se esperava ao trazer esses nomes. Ainda há o Caso Neymar a ser resolvido e, querendo ou não, isso está diretamente ligado ao futuro a curto prazo do clube, mas um mercado um pouco menos megalomaníaco pode trazer muitos benefícios ao clube num futuro próximo. Thomas Tüchel tem um plano.

Por Nicolas Müller - @_nicolasmuller

O difícil encaixe de Diego Tardelli no Grêmio

Quem parou seus afazeres para assistir a CSA-Grêmio pelo fechamento da rodada foi vitimado por um jogo muito, mas muito ruim, dentre tantos desse Brasileirão. Mas o jogo contou com a presença de Diego Tardelli e Luan juntos pelo lado gremista, uma dupla sob qual recai muita expectativa, desde a direção até a torcida.

Tardelli em ação contra o CSA. (FOTO: LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA)
Tardelli não teve um bom primeiro semestre de 2019. É um fato. Ainda teve a polemiquinha que até envolveu uma coletiva pesada de Romildo Bolzan, mas o gol no primeiro embate contra o Libertad, pelas oitavas da Libertadores, parecia ter dado uma nova vida ao atacante no Grêmio. Mas o seu jogo ruim contra o CSA, embora com time todo reserva, serviu para nos alertar novamente sobre o encaixe de Diego Tardelli no time titular. Tecnicamente não há dúvidas que o careca é milhões de vezes melhor que o seu companheiro de vestiário André Felipe. Até acho que deveríamos jogar um, dois jogos com Tardelli como 9 titular e ver no que dá, porque, afinal, futebol não é uma ciência exata e geralmente estamos todos errados nas nossas teses. Foi o que defendi no meu Twitter, inclusive.

Porém, a questão que me motivou a escrever foi a nossa falta de profundidade contra o CSA. Tínhamos dois jogadores móveis - Luan e Tardelli - que saíam a todo momento de suas ''posições'', buscando se aproximar da zona da bola. O nosso ex-Rey da América até iniciou o jogo um pouco mais adiantado, mas com o passar dos minutos foi buscando mais a zona central do campo, onde é seu habitat. Tardelli, porém, em raríssimos momentos foi a nossa referência. Tanto é que obteve só uma finalização - pra fora - nos seus 84 minutos em campo.

Mapa de posicionamento do Diego Tardelli. (SOFASCORE)
Seguidamente falam sobre o gosto do Renato por um centroavante de referência. Foi campeão da Copa do Brasil com Luan de falso nove, mas no ano seguinte já buscou, muito acertadamente, Lucas Barrios. Depois consagrou o limitadíssimo Jael. Não é simples gosto por esse tipo de jogador. Ter um centroavante de referência dá a profundidade que o time precisa para ter espaço pra criar. Jael, embora seja um jogador tecnicamente muito aquém, foi muito importante gerando essa profundidade, jogando a linha defensiva adversária pra trás e provendo alguns pivôs, que passaram a ser cada vez mais explorados pela equipe.

Mas voltemos à realidade, não farão eu sentir saudade do Cruel. O grande 'mérito' do André é ser um jogador com essa característica de referência. Ele empurra o time adversário e libera espaço para os pontas centralizarem e, consequentemente, o corredor para os laterais ultrapassarem. Uma movimentação do atacante que acarreta no funcionamento do time como um todo. Entretanto, erra muito nos pivôs, nos passes e não tem presença de área.

Pensar um time de futebol é estar eternamente com um cobertor curto. Não dá para ter a equipe perfeita, só optar por deixar os pés ou a cabeça de fora. Optar por qualidade em detrimento da característica. Sabe aquele ponta ruim que joga por recompor com eficiência e auxiliar a marcação? Talvez seja o maior exemplo de como os treinadores às vezes abrem mão do talento em prol do funcionamento da equipe. Não quer dizer que esteja errado, é só uma escolha.

Trazer Tardelli ao time titular tem o bônus de ser um jogador com uma qualidade muito maior de drible, finalização e passe, mas também tem o ônus de termos que adaptar nosso estilo de jogo moldado para um outro tipo de característica. Tenho claro que Diego não foi trazido para ser um 9, mas a sua incapacidade física de recompor com vitalidade o impede de jogar de extremo.

Provavelmente Tardelli renderia bastante no Grêmio do início do ano passado, por exemplo. Era um time cômodo com a bola nos pés, tinha muita mobilidade e jogadores atacando o espaço a todo momento. No Grêmio de 2019, que tem dificuldade para criar situações de gol e depende muito do Cebolinha, só o tempo dirá se o Tardelli conseguirá se adequar. Ou se o Renato fará mudanças por ele.

Por Nicolas Müller - @_nicolasmuller

 

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Edited by Douglas Menezes